Thursday, July 30, 2009

Uma xícara

Uma xícara de chá, muito quente, muita fumaça, muito bonita, no canto da mesa, incrivelmente inocente, incoerente, inacreditavelmente surda, silenciosa, estática, elétrica, parda, pulsante, eterna. No canto de todas as mesas todas as coisas escorregavam e quebravam-se contra o chão de madeira, contra o carpete, contra os azulejos sujos, contra o mofo, contra a morte. Embaixo de todos os tapetes se escondia o resto do que não consumimos, não abraçamos, não engolimos, não trançamos e não amarramos contra nossos corpos nus, gelados, estranhos.
Um milhão de xícaras de chá muito quentes jorravam água sobre nossas cabeças, e eram como quedas, e eram como uma só voz, o último poema, o tijolo final, o remendo, um chapéu, gritando pelo entendimento do confuso, pela clareza, eram um milhão de xícaras-fonte, eram um rio, um oceano, todo o inconsciente e tudo o que não foi dito, não pensado, não planejado, tudo o que deu errado.
Na beira na praia com os meus pés na areia e o vento arranhando meus cabelos tudo o que havia era isso, era a única, era a última de todas, irmã abandonada, solitária em sua busca infinita pela estaticidade. Uma xícara de chá: a olhei e repeti seu nome quantas vezes pude. A envolvi em mim e a tirei do chão e da neblina da verdade e ela era toda minha. Só aquilo fazia sentido.
Bebi o que pude. Deixei a última gota correr solta pela borda da porcelana, apenas pelo prazer pessoal que isso me proporcionava.