Ela foi embora como se estivesse indo ao supermercado. Não olhou pra trás, não trancou a porta, não prestou atenção nos carros ao atravessar a rua, não sorriu. Ela partiu em silêncio, ela me deixou num desespero, ela fez tudo o que podia fazer. Ela sempre soube que ia acabar desaparecendo de nossas vidas e que ia ser doloroso. Ia conhecer outras montanhas, outras janelas, outros reflexos nos vidros, outras cores de chuva batendo no telhado, outros faróis de carros, outros livros mofados, outras torradas, outros sofás, outros pára-brisas, outros ladrilhos distorcidos por causa da água no fundo de outras piscinas, outros oceanos, outras tábuas de madeira, outras enumerações longas de detalhes desimportantes.Não sabia o que dizer, não haveria nada a dizer. Mas como no fim das contas são sim, as palavras que moldam nossos sentimentos, eu corri atrás dela até o fim do quarteirão. Segurei firme em seu ombro esquerdo, respirei fundo. Não queria chorar. Não queria sorrir. Não queria estar lá, não queria ter vivido todos aqueles anos lindos e rápidos para ver tudo desmoronar daquele jeito, naquele instante, aquilo doía demais.
Ela franziu a testa, olhou para os lados, suspirou.
"Eu te amo e por isso eu te liberto. Eu te amo e por isso te deixo livre da minha existência"
E entrou no táxi.