Monday, July 20, 2009

A noite

O dia passa lento e belo, e o céu gira quase como se as nuvens deslizassem. Cada detalhe me engole. A luz reflete na grama e de repente o chão fica branco, muito branco, e depois vermelho vivo. Cada centímetro do meu corpo pulsa num ritmo que eu ainda desconheço, e que ainda não entendo, porque é difícil viver uma vida que se retorce tão vagarosamente. Mas a beleza fecha um cerco contra a minha cama e tal tarefa torna-se relativamente mais fácil.
Eu penso no último instante antes de eu olhar pra cima - tudo que precisa-se é um momento. Vários vieram à minha mente no mesmo segundo. O chão de azulejos muito gelados contra minhas costas e mornos contra minhas pernas, e o vapor, e todo o vapor do mundo que era vapor, e cinza, e distante, e eu olhei para as paredes que me agarravam e para a porta de vidro e eu tinha sido abraçada pela dor completamente. O sofrimento durou o quanto precisava tê-lo feito. Depois eu estava contra o teu corpo quente na madrugada fria, e ela realmente era fria, e o tecido duro e incômodo da rede machucava minha pele, e eu olhei pra cima, e a vida era enorme e ameaçadora. A beleza do passar dos dias fez doer o quanto minha existência é finita. A beleza é um sofrimento que dura o quanto precisa. Outra vez foi quando eu estava surda. Olhei para o teto e estava cega, e o mundo eram luzes piscando muito rápido em muitas cores que eu não conhecia. Não entendi a dor aquele dia porque eu não entendia mais sensação alguma. Era quase como morrer e nascer de novo, numa manhã desconfortável, numa ressaca do mar no mês de Fevereiro.
Mas os dias passam correndo como resto de água que cai da banheira, por baixo da porta, num dilúvio dançante, quase uma coreografia, quase cinematográfica. e a alergia e a beleza das coisas que são extremamente pequenas vai me cativando cada vez mais até que ela se torna gigantesca e eu não caibo mais dentro de mim. Eu preciso mostrar a beleza para os outros.
Tem muito mais de você em mim do que você imagina.