Ele não é suficiente não pelas falhas, nem pelas qualidades, mas pela diferença dos detalhes. Pelo tipo da tinta que usou pra pintar aquele último quadro. Não pela falta de sentimentos, mas pela falta de expressão. Porque palavras são voláteis, e o meu sentimento é volátil, e ele tropeça em seus verbos como eu tropeço no que eu penso mas pelo menos eu falo tudo. Eu quero castigá-lo pelo o que fez comigo, maltratá-lo por me fazer chorar, porque um amor jamais deveria te fazer chorar. Mas eu estou morrendo por dentro. É muito lento, e pouco doloroso, e um pouco verborrágico, e bastante melancólico. Eu perdi a vontade de lutar pelos meus sentimentos. O que eu penso não importa mais.
Mas ele não é suficiente, ele nunca foi suficiente, mesmo eu achando que poderia. Ninguém nunca é suficiente, o vazio dentro de mim não pode ser preenchido por nenhum ser humano. A verdade é que nada adianta, eu não me quero feliz. Eu vou lutar contra isso enquanto puder. Admito minha pré-fabricada derrota. Mas ele, ele é perfeito, ele é desenhado cheio de linhas horizontais tremidas, ele é apaixonante, mas me falha. Falha não por o que ele é, mas por o que ele não foi. Pela eterna espera que me proporciona. Por todas as cartas que não escreveu, por todas as vezes que não me olhou direito, pelas palavras que pensou e eu não escutei, pelas que eu gritei e ele não ouviu. Falha pelo conformismo, falha por todas as loucuras que não fez, aliás não fez nenhuma, aliás falha porque me ama em silêncio ao invés de aos gritos.
E o amor pra mim não pode ser um sentimento silencioso jamais.
Falha não pelo que sente, mas falha pelo que faz com o que sente. Falha por se importar que falha. Falha por pensar tanto ao invés de sentir, e planejar tanto ao invés de agir, e não correr, e não pular, e não chorar, e não considerar, e se iludir. Falha por todas as fotografias que não tirou. Parece que às vezes implora para que o esqueça, no fundo deve implorar.
Mas se ele não for, depois de muitos anos, suficiente ainda, eu não vou correr pra nenhum lugar. Eu estou cansada e sem esperanças em relação à vida como uma criança que perseguiu uma borboleta por muito tempo até descobrir que era uma mariposa. Eu morro por dentro. Meu castigo é escrever cada vez mais, e pensar cada vez menos. Nunca mais desenhar. Nunca mais olhar para o céu. Minha alma derrete e me afoga. Eu não estou triste, eu estou feliz.
Eu estou extremamente feliz, mas era só uma mariposa.