Thursday, July 16, 2009

Poema da Obcessiva Compulsão


Troco a madrugada verdadeira
por uma outra inventada qualquer.
Meus olhos secam contra a luz brilhante da verdade
- e como arde a verdade!
e como me racha a pele como racham pedras sob o sol
inesperado sol
rígido e veloz.
Troco uma noite toda de lençóis
por uma mais fria, mais humana
mais robótica, mais desentendida.
Falo em vão com pessoas-espelho
deixo de lado a ambição de fazer poesia bonita
- prefiro poesia feia
porque os feios conhecem os seres humanos
muito mais profundamente do que qualquer ser belo
seria capaz.
E quando eu chorei e reclamei até as quatro horas da manhã
da insuficiência orgânica dos meus amores passados
eu soube que ele quis dizer ao meu ouvido
"Eu serei melhor que todos eles. Eu serei perfeito"
Mas como não podia prometê-lo, jurou o que pode
e num último suspiro de alvorada quase fico certa
que ouvi seus lábios contornarem tal frase

"Só sei que vou te amar muito mais"

E quase por costume literário sei que troco
minhas horas longas por outras curtas quaisquer
e me dobro nelas, me enrolo
sob minha própria língua e canção
da tristeza de um espelho
de saber que definho
de saber que me destruo
porém espero, e sobrevivo
porque há um fio de esperança em tudo que é vão e lúcido
porque no fim, eu vou amá-lo muito mais.