Friday, July 17, 2009

Caroline e o nada

Ela já não conseguia nem mesmo encarar seu próprio rosto no espelho enquanto o elevador subia. Já não se suportava mais, e cada segundo que passava sozinha consigo mesma era um passo à caminho da loucura. Desejava em silêncio que os andares passassem mais depressa, mas estes insistiam em preservar uma inigualável lentidão em seu movimento. Àquela altura tudo simplesmente rastejava.
A porta finalmente se abriu. Seus pés andaram através do corredor escuro e comprido como se estivessem movendo-se sozinhos. Caroline já não sentia nenhuma parte de seu corpo, estava inteira dormente. Sua mente permanecia acordada apenas para a assistir enquanto vivia uma vida oca. Abriu a porta à sua frente, puxou uma cadeira macia e sentou-se.
- Bom dia.
O homem sentado do outro lado da mesa falava ininterruptamente, palavras compridas e lentas, que soavam bem. Às vezes fazia algumas longas pausas, nas quais respirava fundo e começava tudo de novo. Ela percebeu que já não podia mais entendê-lo. Já não era mais capaz de acompanhar seus pensamentos e raciocínios, nem de decodificar os sons que ele fazia, extraindo deles qualquer tipo de significado. Estava desligada do mundo, desconectada das pessoas e não conseguia prender-se de volta à elas. Não apenas não conseguia, como também já não queria mais fazê-lo.
Estava cansada de viver a vida dos outros ao invés de viver a sua própria. Era tudo o que havia feito durante toda a sua existência: viver uma outra vida qualquer. Caroline não sabia bem qual era, mas tinha certeza de que não era a sua. Era uma vida inventada, milhões de vidas inventadas protagonizadas por milhões de pessoas inventadas que nunca existiram e jamais iriam existir. Elas não significavam nada e nunca significariam nada, mas eram tudo o que ela possuía: tudo o que ela tinha era uma ausência de importância em seus acontecimentos inexistentes. Mas era ali mesmo que morava o maior problema de todos: apesar de não suportar o vazio de seu viver através de atos imaginários, Caroline era ainda assim incapaz de viver sua própria vida. Não poderia. Não poderia porque ela não se agüentava mais, não seria capaz de conviver consigo mesma. Tudo o que ela era era insignificante ao lado do que ela teria sido capaz de ser. Tudo o que lhe acontecia não era nada quando comparado ao que poderia ter acontecido. Isso apenas era suficiente para fazer com que ela se odiasse e escolhesse apenas estar lá, estar aqui, estar em qualquer lugar sem que sua existência significasse mais nada adicional. Porque na verdade ela não estava ali, ela não estava em nenhum lugar, nunca.
Pelo menos ela própria agora entendia sua escolha e a aceitava. Podia não-viver em paz.
- Acho que fui bem claro em minhas explicações. Estamos entendidos?
- Sim senhor.
Caroline não fazia idéia do que havia entendido, mas parecia ser algo extremamente simples.
- Então você pode começar agora. Sua sala é a terceira porta à direira, no final do corredor deste andar mesmo.
Andou devagar na direção indicada, deparando-se com uma salinha minúscula, sem janelas ou perspectiva. Exalava um cheiro de poeira muito forte. Fechou a porta e sentou-se à mesa, fitando durante alguns minutos a razoavelmente grande pilha de papéis disposta à sua frente. Milhões de letras formando palavras e milhares de palavras emanando significados, tudo aquilo junto à tratar de temas que com toda certeza não lhe interessavam: divórcios, brigas por dinheiro, custódias. Tudo aquilo que ela considerava tão superficial e desimportante tentando impor importância à ela através de suas frases complicadas e folhas numerosas que no fundo apenas escondiam pessoas. Mas ela enxergava por trás de todo aquele material, e sabia que em cada página estavam ocultos apenas seres humanos, pessoas com sentimentos, fragéis, alegres, tristes, animadas. Quem quer que fossem, eram todas apenas gente em busca de alguma coisa que elas acreditavam que melhoraria suas vidas, mas que Caroline sabia que no fundo não fariam qualquer diferença.
Felizmente seu trabalho não exigia muito esforço mental e ao mesmo tempo era uma ótima desculpa para mantê-la longe de seus próprios pensamentos. Tratava-se da simples tarefa de separar aquela papelada de acordo com alguns temas e distribuí-la às respectivas pessoas que transformariam aquelas coisas escritas em ações. Enquanto estava ocupada em reconhecer cada tipo de caso, foi interrompida por duas batidas leves em sua porta.
- Vim aqui dar-lhe as boas vindas.
- Muito obrigado - Caroline agradeceu o gesto, mas não sabia por que é que deveria sentir gratidão.
- Desculpe-me, mas como é seu nome mesmo?
- Caroline.
- Ah, sim, eu sou o Antônio. Mas pode me chamar de Tom. Todos me chamam de Tom.
- E eu tenho que te chamar de Tom só porque todos te chamam assim? Parece um pouco injusto.
- Bom - Tom estalou o pescoço, constrangido - Você pode me chamar como preferir. Não se preocupe com isso.
- Talvez então eu prefira não te chamar.
- Certo.
Ao invés de ir embora ofendido, como Caroline esperava que Tom fizesse ao ouvir seu comentário, o moço ficou parado ao batente da porta. Os olhos claros que não piscavam e os cabelos ondulados espalhados pela cabeça estranhamente redonda, todo o seu conjunto simplesmente permaneceu ali, encarando-a com uma respiração irritantemente ofegante. Um sorriso amarelo brotou em seu rosto, mas ao perceber que este não havia provocado em Carol nenhum tipo de reação, Tom decidiu por fim dar meia volta e partir, fechando a porta atrás de si.
- Certo, certo. - ela o ouviu murmurar, do outro lado da parede, enquanto seus passos diminuíam de volume gradualmente.
Caroline riu sozinha, pensando na imagem do homem que havia acabado de visitá-la. Antônio parecia o tipo de cara com o qual ela poderia manter um relacionamento: ele não era muito bonito, o que era um ponto positivo, já que ela mesma não era nenhum exemplo de beleza, e não aparentava ser muito inteligente, o que também era ótimo, já que Caroline se irritava muito facilmente com pessoas que insistiam em provar que sabiam mais sobre isso ou aquilo do que ela. Além do mais ele parecia ser ou extremamente paciente em relação à comentários rudes ou completamente incapaz de entender um, e qualquer uma das opções seria igualmente agradável. Ela gostava muito de ser rude com as pessoas em momentos inesperados para observar suas reações à atitude dela: era interessante perceber como cada um se importava com os atos alheios, mesmo quando não precisavam. O modo inusitado ou talvez confuso com o qual Tom havia encarado a situação tinha com certeza deixado Caroline curiosa. E era já óbvio que na situação na qual se encontrava, qualquer pessoa que fosse capaz de despertar nela qualquer sentimento era digna de atenção.
Passou o dia inteiro separando papéis e tentando manter sua mente completamente em branco, quase como se desejasse entrar em algum tipo de estado meditativo. Finalmente havia chegado a hora na qual ela deveria ir embora, de volta para a solidão silenciosa de seu apartamento, no qual estaria livre então para sonhar um sonho de algum outro alguém. Arrumou suas coisas, abriu a porta e arrastou-se pelo andar até a porta gelada do elevador. De repente pareceu enxergar seu reflexo em todas as coisas à sua volta. Um reflexo que a zombava em silêncio, seus próprios olhos pintados nos objetos ao seu redor gritando para dentro dela mesma o quão patética ela era. Nada disso era necessário, ela já sabia, ela já sabia. Mas sua mente recusava-se a parar de berrar, deixando-a tonta. Precisou segurar-se para não cair no chão, desmaiada em meio à sua névoa de raiva contra si mesma.
Olhou para o lado e percebeu que estava apoiada em Tom, que sorria para Caroline de um jeito ligeiramente menos amarelado do que da última vez.
- Você está bem? - ele perguntou com voz baixa e num tom perturbadoramente despreocupado.
- Acho que sim.
- Vamos embora daqui?
- Vamos.
Antes que pudesse perceber, Caroline estava sentada no carro de Antônio, indo em direção ao apartamento dele. Já não ligava muito pra nada disso, porque sabia que não importava onde estivesse, jamais poderia escapar de si mesma. Não importava quantos quarteirões desconhecidos aquele veículo ultrapassava naquele momento. O mundo em volta não era mais importante, porque a sua desimportância pessoal ressoava dentro dela mesma mais alto do que todo o resto.
Sentou-se no sofá do moço, os olhos vidrados encarando a vermelhidão transparente da taça de vinho que segurava em sua mão. Bebeu todo o líquido em um gole só, porque a beleza dele a incomodava muito. Apoiou o copo usado na mesa de centro e olhou pra dentro dele durante muitos minutos. A translucidez maldosa do vidro fosco, cantando baixinho músicas que ela não conhecia e nunca iria conhecer, porque no final das contas ela nunca acabava conhecendo as coisas certas, a irritou profundamente. Tudo o que lhe acontecia parecia de uma maneira ou outra inevitavelmente errado, como se toda a sua vida fosse apenas um obstáculo a ser vencido. E já estava ficando difícil continuar vencendo.
Caroline inspirou e depois soltou todo o ar de seus pulmões. Seu maior desejo naquele momento era poder não ser ninguém.
Tom sentou-se ao seu lado, encarando com aqueles olhos assustadores os cabelos loiros da moça.
- Você bebeu tão rápido...
- É que eu não gosto de vinho. Quanto mais rápido eu puder fazer ele desaparecer da minha frente, melhor.
- Eu poderia ter servido alguma outra coisa.
- Eu ia continuar não gostando. Eu não gosto de quase nada.
- E do que você gosta?
- Não sei. Gosto do nada. Do vazio.
- Qualquer vazio ou apenas o vazio que existe aí dentro? - Tom completou a frase apontando o dedo indicador para a testa de Caroline.
Ela se espantou com a audácia do comentário. Além do mais, a ideia de diálogos que a fariam pensar muito não estava lhe agradando.
- Quem você pensa que é para falar uma coisa dessas?
- Eu - Tom sorriu numa estranha satisfação - não sou ninguém. E você, você também não precisa ser ninguém. Se você não quiser, não precisa. Não hoje.
Caroline respirou aliviada, encostando a cabeça contra a almofada do sofá marrom. Aquele momento para ela era tão prazeiroso quanto parar de existir. Ela segurou com força o braço dele e simplesmente parou de existir.
E foi assim que ela percebeu que era possível nascer de novo.