Essa é uma história sobre uma pessoa exatamente igual à todas as outras. Uma pessoa que acorda de manhã, dorme à noite e no meio tempo luta para preencher o vazio que envolve todas as nossas almas daquele jeito que adoramos negar que acontece. Uma pessoa que não sabe no que acreditar e desdobra-se sobre si mesma tentando organizar pensamentos que nem sempre acompanham uma linha lógica, mas na maioria das vezes em que aparecem fazem um momentâneo sentido. É com exatidão o tipo de pessoa na qual você não repara quando cruza com ela na rua. Nada nela é particularmente especial, nem é ela perseverante de uma maneira que possa fazê-la se destacar da multidão. É uma pessoa que assim como você, possui sonhos e está disposta a correr atrás deles, mas apenas até um certo ponto. Eventualmente ela acaba se conformando com a vida que tem e com sua existência arrastada através dos aniversários que somam velas, canções, livros lidos e órgãos deteriorados. Ela também tem medo de estar assim, ela também gostaria de fazer de seu tempo na Terra algo maior e mais importante, mas ela, assim como você, acaba pensando em muitas coisas e finalmente não fazendo nada.
Pensar é muito fácil. Pessoas inteligentes gostam de imaginar que pensar, organizar pensamentos e traduzi-los em palavras é algo complexo e que exige habilidade, mas a verdade é que qualquer um com a quantidade certa de paciência e vocabulário pode fazê-lo com a facilidade de uma criança de cinco anos que colore um livro. Talvez, e é provável que sim, até mais facilmente.
Enfim, nosso conto começa numa manhã de qualquer estação do ano, pois essa é uma informação deveras indiferente, na qual nossa pessoa acorda com o apito irritantemente agudo do despertador de sua cabeceira. A primeira coisa que ela faz é respirar fundo, muito fundo, e durante o resto do dia acaba esquecendo de respirar de novo. Arrasta os pés pelo assoalho de madeira, estranhamente acolhedor em seu frio, como se o gelo envolta dele dissesse para os poros de sua pele que aquele dia que estaria prestes a começar seria exatamente igual à todos os outros, independente dos detalhes que o diferenciassem. Terminaria ele também desta maneira, com os pés nus atravessando as mesmas tábuas geladas e o corpo chocando-se contra as cobertas quentes, como fora e será.
Agora a tal pessoa, devidamente vestida, banhada e alimentada, está atravessando as ruas compridas que à levam a seu compromisso diário. Não importa também a natureza de tal obrigação, nem se trata-se ela de um trabalho ou um estudo. Não há muito menos diferença em saber-se se ela se move através de algum veículo ou a pé. O que nos interessa neste instante não são os pormenores de seu entediante currículo, mas sim o resultado do mover atrapalhado dos sinais nervosos através de seu cérebro.
É realmente incrível o quanto as pessoas ocupam seus pensamentos com coisas completamente irrelevantes. Observem, por exemplo, nossa pessoa comum. Durante seu trajeto pelas ruas, pensou com detalhes vívidos como seriam os diálogos que ela teria com certas pessoas ao longo do dia. Não surpreendentemente, pouquíssimos iriam por fim tornar-se concretos. Durante suas tarefas, pensou no que iria fazer ao chegar em casa, ou quando saísse do local onde estava. Passou também uma considerável quantidade de tempo revendo acontecimentos do dia anterior que haviam ou a incomodado, ou a surpreendido, ou eram de alguma maneira dignos de ressalva. Fez mentalmente uma lista de o que precisava comprar quando fosse à uma livraria. Ao supermercado. À papelaria. O que deveria perguntar ao médico quando o visitasse. Como agiria no encontro que teria aquela noite, ou o que fez de errado no que teve à noite passada. Pensou nas coisas que queria ler, assistir, desenhar. Nas que leu, assistiu, desenhou. Naquela vez em que tal pessoa disse algo que a chateou. Em como ela era menos inteligente do que poderia ser, pois acabava nunca tendo tempo pra pensar direito. Em como ela era menos atraente do que poderia ser, pois acabava nunca tendo tempo pra fazer aquele exercício ou aquela dieta -ou então forçava-se a acreditar que não ligava para nenhuma dessas superficialidades e estava feliz como era, até conhecer alguém que não achava sua beleza boa o suficiente, para então assistir seus conceitos escorrerem ralo abaixo junto com a sua provavelmente inexistente auto-estima. Enfim, cada segundo gasto em palavras que se referiam à momentos diversos, e nenhuma concentração havia no presente. A nossa pessoa não estava nunca nele. Talvez possamos abrir algumas exeções, como em talvez breves momentos de prazer ou sono, mas de um modo geral a ausência dela nos acontecimentos que a envolviam era surpreendente.
É sabido por qualquer um que o passado e o futuro de fato não existem. O futuro, por razões óbvias, não existe por ainda não ter acontecido, e o passado, por razões talvez ainda mais óbvias, não existe por já ter acontecido e atualmente parado de acontecer. Nada se salva. O passado só existe a partir do momento que observamos ele no nosso presente. De nada adiantam livros escritos e publicados que nunca mais são lidos. Eles existem tanto quanto um futuro distante, ou próximo, de desastres naturais. Tudo o que eu, você e a pessoa comum dona da história possuímos como tempo com o qual podemos ocupar nossa existência é o presente. Nós só somos o que somos aqui e agora. O que fomos e o que seremos não existe e não existirá jamais, a não ser talvez pelos ilusórios pensamentos que, pasmem, pensamos durante o presente e podemos apenas pensar durante o presente.
Nós nos afastamos de nós mesmos. Assim como acontece com a nossa pessoa precisamente igual às outras, nós temos tanto medo ou tristeza ou preguiça de ser quem somos, simplesmente quem somos e nada mais do que somos, que acabamos transferindo nossa vida para um tempo não existente, divagando por planos que não poderemos nunca alcançar e nos empurrando para fora da nossa prórpria essência.
Essa história talvez não tenha sido uma história tão emocionante ou engraçada quanto outras que existem porque estão sendo lidas neste momento por alguém, mas pelo menos ela serviu para ocupar seus pensamentos com ela mesma. Não há sentido maior em nada que é escrito no mundo a não ser esse agora mencionado, então é melhor que nos conformemos com isso como nos conformamos com todo o resto. Quem sabe então possamos ocupar nossas cabeças com o ato de estar aqui mais do que as ocupamos com o ato de estar em outros lugares. Se não o fizermos, não há importância. Porque no fundo prova-se que não há real importância em nada que fazemos. Mas já que há a capacidade de escolha, bem, é de imaginar-se que ela deva ser aproveitada conscientimente, no mínimo.