Monday, July 28, 2008

Could you please find the time to listen to me?

O asfalto liso e quente parecia jamais terminar. Seus detalhes eram já desimportantes. O sol do meio-dia acordado ardia sobre as cabeças adormecidas, deixadas mal-dormidas e esquecidas num sonho de verão qualquer. Qualquer sonho de verão é sempre válido porque é sombreado pelas mesmas nuvens do céu que cobrem na única igualdade do mundo todos os rostos. O despertar lento dos olhos ardentes foi quase um poema, mas era na verdade uma prosa mal-feita. As estradas da vida eram longas e havia poucas coisas a almejar, então suspirávamos. A preguiça pulsava em todas as partes lentas de nossos corpos: querendo viver desesperadamente os pedaços se desgastavam e padeciam por fim aos farelos esparramados pelo chão. Foi quase num meio segundo que os dois olhos se encontraram e desencontraram, pouco atrapalhados pelos cabelos ao vento e a juventude inexistente em almas tão idosas e tão cansadas do arrastar ofegante do mundo em volta dele mesmo. Tudo poderia ser tão novo, mas revelava-se tão surpreendetemente velho e conhecido.
Com dificuldade levantamos. O som do silêncio distante e do barulho próximo ainda ecoava dentro de nossos ouvidos. Um peso enorme sobre cada nuca, e era o peso de nossas próprias existências. Durante longos minutos nenhuma palavra foi dita, porque nenhuma palavra era necessária, e em momentos como aquele, o desnecessário era evitado e empurrado para longe enquanto era possível fazê-lo. Mas isso nunca durava muito, porque é sabido que o que não precisamos é sempre o que precisamos ter.
Arrastamos nossos pés tristes por entre portas de vidro felizes até encontrar uma mesa de café da manhã que nos satisfizesse. O lugar era um restaurantezinho minúsculo, com mesas menores ainda, cobertas por toalhas branco-amareladas e pratos de porcelana azul. Sentados e com as faces exaustas abaixadas, curvados sobre nossos próprios corpos, é que fomos encontrados pela moça gorda que saiu de trás da cortina de miçangas, sorrindo um sorriso cujo aconchego parecia ser proporcional ao de seu colo. Logo me simpatizei por ela, antes que esta pudesse tomar qualquer tipo de atitude em relação a nós. Ela era aquele tipo de pessoa que revela-se completamente através do primeiro olhar, para nunca mais revelar-se de novo. Os cabelos loiros e murchos caindo sobre seus ombros fartos, os olhos castanhos grandes, a íris emoldurada por uma linha negra. Riu de nossos semblantes idosos e serviu pão com manteiga. Nunca a amei tanto quanto naquele instante.
Comíamos devagar simplesmente porque seria impossível que o fizéssemos de qualquer outra maneira. Envoltos numa névoa branca de fumaça de cigarro barato encarávamos um o outro. Mas eu sempre soube dentro de mim que os olhos dele eram na verdade os meus. Depois de um longo gole de água quente, desviei minha atenção para a rua lá fora. Cada pessoa correndo em uma direção, todas vivendo tão desapercebidas: nunca saberiam o quanto tinham sorte, o quão gratificante era simplesmente pode respirar.
- Quando acordei por um instante tinha até me esquecido que estávamos aqui. - e ele riu
- Quando acordei tinha até me esquecido que erámos nós e não aquelas pessoas atravessando a rua.