Era uma bela manhã de primavera e acredito que acabei, quase que por um descuido momentâneo, comentando tal fato com a minha orquídea. Logicamente ela, num acesso de raiva lilás enfurecida, reclamou do calor e do vidro da janela da minha sala. Reclamou também que estava muito longe do sol. Que ninguém dava água pra ela beber direito, que ninguém estava nem aí pras suas necessidades. Esverdeou suas folhas quase como numa ameaça "Olha que eu vou-me embora, Marina, desse lugar! Fujo pra misturar minhas pétalas às pétalas de outras flores quaisquer".
Mas quanta ousadia essa simples planta demonstrou! Não resisti e tive que aderir à discussão "Senhora Orquídea, com todo o respeito é que eu lhe digo, nesse planeta que nós vivemos, é raro alguém importar-se com algo. Eu mesma pouco me importo com o que me diz direto respeito, que pensar com uma simples flor roxa como você?"
Respirou ela então em sua delicadeza floral. Não havia remédio em brigar, principalmente porque a condição de planta a fazia automaticamente superior a mim, tornando desimportante todo o tipo de argumento que eu decidisse utilizar. Busquei um copo d'água, derrotada porém com um remanescente sentimento de caridade. Ela, atenta aos menores detalhes, logo me censurou "Marina, saiba você que não é menos que sua obrigação fazer o que lhe é obrigado. E obrigada, aliás!"
Olhei pela janela, já sentindo-me um pouco menos humana e um pouco mais cacto. Sorri para a moça-orquídea que habita meu móvel marrom escuro e comentei pela segunda vez, agora já quase satisfeita, o quão bela aquela manhã de primavera era.
Foi lógica a resposta que a planta me deu. Não esperaria dela nada menos do que um belo "Saiba você, cara moça-Marina, que todas as manhãs, de sol ou chuva, são belas, porque são manhãs que presenciamos e presenciar qualquer acontecimento vivo do mundo é uma beleza."
Saí pra minha rua de asfalto sem flores, em busca de um bom café-da-manhã. Mas foi quase instintivo e não pude deixar de pensar: Orquídeas são tão extremistas!