Thursday, July 31, 2008

Lugar?

Os dias aqui dentro são noite. Seus olhos são noite. Eu só te enxergo depois das seis horas da tarde, e nenhum segundo antes disso. O copo que segura suas águas não é nada transparente, nem são elas translúcidas. O seu rosto projetado na minha parede segundo após segundo após segundo é pura noite. Você não é rápido o suficiente para conseguir parar de piscar na minha retina. Você não é nada, você é a luz refletida que informa meu cérebro de sua estadia à minha frente. Eu te toco, mas acho que nunca te toquei. Você é onda e partícula e infelizmente nenhuma das anteriores também, porque ninguém pode ser algo e não-algo ao mesmo tempo e você é. Nada, nada, você é a ausência de cores do céu de nuvens alaranjadas da madrugada fria. Você é todas as minhas figuras de linguagem, todas as minhas hipérboles, todos os meus plurais, todos os meus pontos e todas as minhas vírgulas e você é principalmente o absoluto que nunca é traduzido em palavras. Você é tudo que já foi escrito, pintado, desenhado, esculpido, construído, cuspido, jogado contra a parede e imaginado no mundo. Os dias sem você e com você são exatamente a mesma coisa porque você é todo o meu nada, preenche com vazio todo o buraco gigante dentro de mim. Suas mãos são de manhã. Por isso eu não posso te segurar e fazer você ficar perto de mim. Eu só te enxergo depois das seis horas da tarde. Já são quase cinco e meia.