Tuesday, July 22, 2008

Nada errado

Nada errado por aqui. Tudo certinho, como sempre foi e continuará sendo. Tudo ok. Mas tem um vazio muito grande dentro do meu peito crescendo cada dia que passa, e manchas nos meus olhos e na minha pele. Eu vou acordando cada dia mais e mais rouca. Lá fora, tudo lindo. Porém a infeliz verdade é que talvez meu coração não precise de motivos para ficar infeliz. Eu procuro saídas em todos os lugares, esperados e inesperados: de budismo à Schopenhauer, parece não haver filosofia que salve a minha vida. Então vou apodrecendo as poucos, lenta e silenciosamente como eu sei que está acontecendo e sei que ninguém mais sabe. Já nem sinto mais tantas vontades. Antes eu precisava provar quem eu era para os outros. Precisava ser mais inteligente, mais feliz, mais bonita. É lógico que eu nunca fui nenhuma dessas coisas, mas até a patética necessidade de auto-afirmação parece que se foi. Vago transparente por entre os meus dias, já não sinto mais quase nenhuma vontade. Quando eu fico assim, não preciso mais ser nada. Nada que eu fosse ou nenhum lugar para o qual eu fosse me arrancaria de dentro da minha própria tristeza, o que faz automaticamente qualquer desejo algo desnecessário, e qualquer necessidade algo indesejável. Não é que eu esteja mal. Não tem nada de mal aqui. Mas a degradante realidade é que talvez não precise haver nada de mal para que o mundo a minha volta de repente escureça e comece a derreter. Procuro desvios em todos os cantos, já sonhei todos os sonhos: de humanitária à ladra, parece não haver futuro que me salve de passar o resto dos meus dias trancada num quarto com as luzes apagadas, escrevendo frases que ninguém nunca vai ler.
Tanto faz. Se você fosse embora, ou eu fosse embora, o que ia ficar seria o mesmo espaço em branco de sempre. Talvez você escrevesse algumas cartas, lembrasse de mim quando chegasse Junho. Talvez a gente trocasse uns emails, e você viesse visitar no Natal pra gente dar uma volta e ir no cinema. Não faria nenhuma diferença. Você poderia ser um homem qualquer e seria tudo a mesma coisa, nós seres humanos somos todos iguais em nossos penosos acontecimentos. Ninguém vai sentir pena de mim, e nem deviam, pela sobressalente falta de motivos. Mas cada vez mais as coisas vão perdendo significado pra mim, e nenhuma delas parece servir para qualquer propósito que seja. Eu não quero nada. Espero que você seja feliz e sua vida longa, porque ela é basicamente tudo o que nós sabemos que temos para aproveitar. Longe ou perto de mim, eu só queria que você ficasse bem. Porque eu poderia ser qualquer outra mulher e a situação seria exatamente a mesma. Nós não somos especiais. Cada dia dia que eu durmo, acordo mais e mais cansada, e vou ficando assim exausta de tudo isso aqui. Existir me dá dores de cabeça. Eu não quero nada disso: eu não quero precisar saber das coisas, trabalhar, ganhar dinheiro, ler livros, entender de música, amar cinema, saber discutir Marx numa mesa de bar. Eu só quero ser feliz. É só isso que me importa, todo o resto pra mim está errado, por mais que não haja nada errado aqui. Tudo certinho, como sempre foi, mas sempre haverá algo ruim quando tudo estiver certo e eu estiver infeliz.