Meus olhos abertos vêm coisas. Não é mais possível frear o desenrolar das finas linhas que formam as palavras em minha mente. Vejo e revejo o mesmo filme várias vezes, mas o subto despertar da realidade aperta meus desejos semi-desacordados contra a parede de azulejos azuis e eu não aguento mais pensar em você. Não aguento mais pensar em você. Não aguento mais pensar em você. Não é nem minimente racional que eu me ocupe com esse tipo de viagem imaginativa quando há tanto mais o que fazer. Nós não estamos nem aqui. Corrigo, nós não estamos nem ali. Você cá, eu lá, o fio que liga minha mente a sua perdendo aos poucos sua força inicial. Nem lembro mais o som da sua voz. Não me importo, esses detalhes surgem apenas quando menos antecipo seus aparencimentos. Eu não preciso te esperar, não preciso te conversar pra você vir pra cima de mim, só queria que você viesse. Porque toda essa distância e esse desdém e esse canto da sua boca minha cabeça em suas levianas reviravoltas já não aguenta mais. Não aguento mais nem vírgulas. Nada me interessa, nada em você me interessa. Não te quero pra mim nem pra vida, nem pras luas cheias que virão, nem seus olhos no reflexo do vidro da minha janela. Mas meus olhos fechados vêm mais coisas ainda. É quase não-humano, mas longe das minhas necessidades está ser humana. Precisava te jogar pra longe (do mundo) ou pra perto (de mim). Ver sua cabeça no travesseiro da minha cama. Não me incomoda qualquer outro acontecimento que possa estar aproximando-se, porque tudo o que envolve as rachaduras da minha pele é a lembrança da sua abreviada presença. Talvez seja possível, porém pouco desejável, que o desenrolar do barbante grosso que forma suspiros em minha mente seja impedido. Se eu me perdesse dentro de mim mesma, será que você viria me procurar, ou será que ia me esquecer pra lembrar um ano depois ou mais? Porque eu quiçá te esqueceria, se precisasse, se me fosse de valia alguma fazê-lo.
Não é.