Thursday, July 31, 2008
Quem?
As pessoas no metrô e andando pela rua e subindo a escada rolante são todas muito tristes. Cara triste, roupa triste, gestos tristes. Muito humanas. Seus cabelos mal-arrumados, os rabos-de-cavalo com os fios soltos, o cadarço desamarrado, todos os detalhes as fazem apenas mais pessoas. Os olhos propositalmente fechados, o vento que sai das janelas do trem batendo em seus solitários narizes, as unhas pintadas de vermelho, a boca sempre, sempre, sempre, sempre, sempre sem sorriso. As lágrimas que já secaram por causa do tempo. Os suspiros conformados: estamos todos conformados, afinal. O sol seco ardendo sobre as infelizes cabeças suadas. Os dedos compridos calejados pelo trabalho, pelos pratos sujos, pelas crianças mal-criadas. O grito entalado na garganta, arranhando-a de maneira tão violenta que a voz quando sai dela é rouca e desafinada. A falta de palavras para falar e principalmente para pensar. Os pescoços tombados um pouco para a esquerda e às vezes um pouco para a direita também. O mau-humor. As sacolas de compras, as sacolas cheias de coisas que não vão nunca preencher o vazio que desejamos que elas preencham. O catarro e a tosse. A fumaça do cigarro, do carro, a fumaça saindo do canto dos olhos. A cor cinza-concreto refletida na pupila dilatada. A constante insatisfação: estamos todos insatisfeitos, afinal. A faixa de pedestres. O camelô: o colar de sementes, o brinco de penas, a pulseira de metal, a miçanga, miçanga, miçanga, o milho. As meninas de olhos verdes bem loirinhas, que minha mãe disse que são filhas de ciganos. A esmola, a cadeira de rodas, o cachorro vira-lata, a meia-calça preta daquela menina (acho que ela é modelo). Os ternos, os uniformes, os aventais brancos, os livros, os ipods, as pessoas fechadas, trancafiadas, de olhos abertos, escancarados. Muito humanas. Seus dedos dos pés choramingando por baixo do pano dos sapatos são irritantemente humanos. Seja humano você também, é seu direito.