O despertador toca mais uma vez, o dia já nasceu. Nasceu mas o sol ainda está fraco, e é cedo demais para que se possa raciocinar. Tiro a mão preguiçosa debaixo do cobertor e tento alcançar meio que zonza o botão que desligaria o som infernal do rádio relógio. Pensei para mim mesma por longos minutos o quanto aquele barulho era odiável: não deveria haver um só ser na face da Terra ao qual ele fosse agradável. O pi-pi-pi descontrolado que tira todas as almas sonolentas de suas camas ao raiar do sol deveria ser no mínimo ilegal. Todos os despertadores deveriam ser jogados em uma enorme fogueira.
E eu dormiria em paz até a hora do almoço.
Cambaleei até a cozinha, com o objetivo de preparar um café. Enquanto a água esquentava corri de volta ao quarto, à procura de roupas decentes: aquelas que nós nunca temos, nunca. Revirei, como usual, metade do meu armário, até que fui obrigada a me conformar com o mesmo par de jeans e a camiseta branca que eu usava todo santo dia.
Voltei à mesa, dessa vez para engolir o líquido preto fedido num gole só. Odiava todos os aspectos daquele bebida pavorosa, e ainda sim a cafeína era necessária.
Depois de longas horas (segundos) na frente do espelho a pentear o cabelo, saio pela porta em direção à mais um dia. O mesmo dia, tudo de novo. Bem daquele jeito que eu odiava, bem do jeito que eu sempre desejei que não fosse.
Minha imagem diante do vitral do elevador era desconcertante: não era feia, mas tampouco tinha a capacidade de me sentir bonita. E fosse talvez esse meio termo o que me irritava. Não seria eu jamais nem a bela, nem a fera. Apenas uma coadjuvante, apenas mais uma no meio daquela fila de banco.
Enquanto subia as escadas rolantes infinitas daquele prédio de escritórios, desejei uma conversa. Desejei uma vida social, desejei um amigo que preenchesse com seu carinho e afeto minha existência vazia e patética. E, naquela fração de momento, naquele instante, eu desejei com tanta força, mas com tanta força, que penso agora que talvez alguém tenha me escutado, em algum lugar.