O chão era preto e branco e o teto vermelho brilhante. Quase tão brilhante de fazer os olhos doerem, mas eu gostava. As janelas eram translúcidas e as portas de um metal espelhado, cinza-escuro elegantíssimo. Os toca-discos tocavam sempre as mesmas músicas e a fumaça que pairava no ar tinha sempre o mesmo cheiro de charuto cubano, mas os rostos eram os mais variados. As almofadas dividam-se em três cores: vermelho, verde e azul-escuro, quase lilás. A luz era de velas, estrategicamente colocadas nos cantos das paredes, e estas projetavam sombras compridas que dançavam sorrindo enquanto as cartas do baralho eram divididas entre a mesa. Os sapatos de grifes famosas e saltos finos e compridos tintilavam no chão como taças de cristal num brinde, de um lado para o outro sobre o mármore que refletia o conteúdo das mini-saias.
Os bolsos eram lotados de dólares e os olhares, lotados de desconfiança e sorrisos irônicos. Os maiores blefes eram não-verbais, e vinham dos homens velhos de cabelos já ralos e grisalhos. A lua brilhava sozinha lá fora e ventada muito forte, mas o calor humano era forte demais para que qualquer um lá dentro pudesse perceber o frio. Quando se descia até o final do corredor, era possível avistar um cofre, de sete cadeados e sete senhas e sete travas. Ele ficava disposto bem em frente à porta do quarto, como um quadro singelo. E despertava, sim, uma curiosidade enorme dentro dos corações e mentes das pessoas que passavam: bem como um quadro faz.
Apenas aquela mulher, sentada no canto do sofá e vestida de vinho escuro, apenas ela sabia o que havia lá dentro. Mas os cabelos loiros-claríssimo e o sorriso infantil não permitiam que os outros percebessem quanta informação ela guardava, e as pernas cruzadas em posição de guerra a excluíam de qualquer suspeita.
Foi quando um homem saiu correndo da cozinha com o rosto obviamente suado e assustado que todos os convidados conseguiram perceber que havia algo estranho acontecendo ali. A música parecia mais alta do que nunca, pois agora todos faziam silêncio, parcialmente assustados, parcialmente confusos.
Um armário careca de terno azul-escuro com risca de giz levanta-se, o rosto encoberto pela aba do chápeu. Puxa do bolso do paletó uma pistola, e é bem nesse momento que uma ruiva de vestido cor-de-rosa grita apavorada e desmaia nos braços de um menor de idade de cabelos castanhos e olhos verde-claro.
Uma fumaça forte invade o apartamento, uma fumaça com cheiro de cigarro e éter. Um grande branco toma conta desse lugar e tempo. Muito tempo depois todos levantam, mas não há mais nada a ser visto a não ser as paredes sujas e descascadas do lugar aonde havíamos sido deixados.
E isso é tudo o que eu sei.