Apesar do quarto estar vazio, ainda hoje em dia era possivel imaginar os tempos em que as cortinas de forro branco e veludo vermelho cobriam as janelas enormes daquela sala. E era quase se como tudo la sempre tivesse sido velho, a nao ser agora que nao existia mais. Imagino eu que no mesmo dia em que foram colocadas, as tais cortinas ja deviam cheirar a po e mofo. Simplesmente porque aquele era um lugar que nao poderia ser imaginado de outra maneira, sem os moveis marrom-escuro e os grandes armarios com macanetas em formato de pinha. Sem as cadeiras de encosto de palha trancada e a mesa de madeira escura de brilhante, fedendo a lustra-movel. Sem o espelho antigo, tao antigo que mal refletia qualquer coisa que fosse, e o po amarelo misturava-se com a ferrugem e modo que ficava ate dificil perceber que tal peca tratava-se de um espelho mesmo. E, logicamente, era impossivel imaginar aquela sala sem o tapete persa colorido, felpudo, tao felpudo que a ate a menos alergica das criancas nao conseguiria evitar um espirro quando colocada sobre ele.
Por isso talvez fosse tao estranho entrar ali e ver as paredes brancas, rescem-pintadas, as janelas cujo vidro havia sido trocado por um de melhor qualidade, e o ambiente completamente vazio. Tudo parecia tao maior, tao amplo, tao falso e distante do ambiente aconchegante que obrigava qualquer visitante a sentar-se no sofa gigantesco e molenga para tomar uma xicara de cha e servir-se dos famosos biscoitinhos de manteiga.
Agora tudo parecia o interior de um ovo, sem graca e minimalista. E tao branco que ardia os olhos.