Um degraus depois do outro, as sombras pareciam se estender até o infinito. Talvez realmente se estendessem. No início, o barulho dos passos ecoava muito alto pelos cantos do teto. Depois de algumas horas caminhando estes, porém, pararam de ressoar, quase como se os pés flutuassem pelo chão de azulejo gelado. Talvez sentisse dor, talvez não sentisse. Todas as sensações pareciam distorcer-se através do tempo, como se numa lente circular que fazia tudo menos lúcido enquanto os ponteiros do relógio giravam, e gritavam, eles berravam quase alto o suficiente para ensurdecer alguém. E cada tentativa de respirar parecia mais dolorida, quase como se o ar fugisse dos pulmões. E cada vez a força da gravidade parecia mais forte, como se o destino do mundo fosse esmagar-se contra o chão. A sola dos sapatos talvez arrebentasse. Talvez assim algo pudesse fazer sentido, nao se sabe. O que se sabe é que os degraus estendiam-se, um após o outro. Suas sombras talvez pudessem ser prolongadas até o infinito. A vida todo poderia ser a eterna subida de uma escada.