Tuesday, April 10, 2007

muito tempo atras3

Eu passei um tempo descendo pela escada que subia. Como num shopping center. Creio que de alguma maneira isso tenha tornado a descida relativamente mais lenta. Talvez assim eu tenha tido chance de apreciar a vista, nao sei. O que sei eh que tive a impressao de estar em ascenscao quando tudo o que fazia era retardar a queda. Creio que tudo na vida seja um pouco assim. A gente nunca sobe, apenas cai mais devagar. E eu, eu estou descontroladamente perto do chao no momento. Descontroladamente perto do chao e adorando. Porque a melancolia em si sempre foi poetica. Quando silenciosa, entao, eh um banquete digno dos grandes artistas. E estar deitada, no chao, em silencio, assistindo as solas dos sapatos, eh no mi­nimo, se nao literario, interessante. Tao interessante quanto se assistisse pisarem em alguem. O inevitavel sadicismo humano por muitas vezes me surpreende e obviamente me agrada. Como ja disse Maugham, os mortos parecem irremediavelmente mortos quando mortos. E acho que eh essa caracteristica neles que ao mesmo tempo nos desagrada e nos convem. Se sentisse falta de um por-do-sol rosa claro ou da grama verde que balanca com a brisa da primavera, talvez isso entao fosse um problema. E se por algum intermedio tivesse saudades do canto dos passaros ou de uma voz amiga, ou ate mesmo de ver criancas inocentes que correm em gritos pelo jardim, entao talvez estivesse em apuros. Mas este nao eh o caso, e a fumaca de nicotina, assim como o gosto do asfalto e os sorrisos das solas dos sapatos me agrada apenas o suficiente. Apenas quanto eu devo ser agradada.

---

e esse texto aqui se eu nao me engano eh de mais de um ano atras.
um ano e meio atras, acho...