As escadas de incêndio do prédio eram cinzas, tortas, nada poéticas. Algo nelas era inevitavelmente empoeirado, os cantos escuros deixando um espaço livre para a imaginação, o ambiente deserto deixando um espaço livre para ações talvez não tão louváveis, mas pensando bem agora, assim, tanto tempo depois, acho que todas essas coisas acabam sendo louváveis em seu particular jeito de ser, apenas por fazerem parte dos acontecimentos que formam nossa vida e quem nós somos hoje. As portas de aço frias tinham um apelo sentimental que talvez, até hoje, só eu entenda. Acho que ninguém mais entende. As coisas que aconteceram muito tempo atrás eu não sinto que aconteceram comigo. Parece que era outra pessoa, outra pessoa completamente diferente no meu lugar, qualquer outro ser humano que estava ali, e eu acabei me lembrando, por engano, talvez como se assistisse um filme sobre a vida de um personagem qualquer que em nenhum aspecto relacionava-se comigo.
Não me lembro de estar descendo os degraus, nem me mexendo, nem me lembro de seu rosto.
Hoje em dia, eu só ando de elevador.