Sunday, June 17, 2007

Então vamos lá

De manhã o caminho que passa pela avenida Ibirapuera fica com o céu metade cor-de-laranja, metade azul. E a rua vai se afunilando em perspectiva, pra acabar misturada nos prédios lá na frente, na 23, com uma mancha avermelhada enroscando-se nos pára-raios.
Toda manhã faço a mesma trajetória, embaixo do mesmo nascer do sol, e olho as mesmas nuvens. Bom, nem sempre as mesmas nuvens. Lembro, e acho que foi quinta-feira dessa semana que já passou, que elas estavam dessa vez espalhadas pelo fundo lilás e bem ralinhas, desfiadas como pedaços de algodão jogados no fundo de uma tela. Como se alguém tivesse passado verniz por cima, logo depois, pra ficar bem bonito. E eu estava ouvindo, acho que era Elliott Smith, e tudo combinava perfeitamente, naquela manhã de um dia feliz qualquer. Mas eu sempre tenho tanto sono a essa hora que acho que olhei, guardei na minha cabeça a cena, encostei no banco e dormi até chegar na escola.

Costumo achar mais bonitas ainda as manhãs dos dias frios e chuvosos. Alguma coisa sobre o cinza envolvendo as cabeças das pessoas andando na calçada me atrai. Tudo em tons de branco sujo, desde a calçada assimétrica e as pedras na beira do Parque as Bicicletas até o asfalto com suas listras amarelas, e o tênis daquele menino de capuz atravessando a rua na frente da igreja. Depois o homem de terno e guarda-chuva preto, rosto sincero, careca como devia ser, e eu via ele atravessando a rua e não sei por qual razão pensava que ele devia ter uma risada gostosa de se ouvir. Velho, assim, correndo apressado, eu pensei que eu adoraria sentar do lado dele numa mesa de um café e ouvir ele contando como tinha sido o dia de hoje, que começava agora, passando pelo farol em direção ao seu escritório, certo? Onde ele então sentaria em seu cúbiculo cinza, cinza como o dia cinza que escorria pelos cabelos das mulheres na rua, e faria o que tivesse que fazer. No fim das contas concluo, talvez e provavelmente de maneira errónea, que não há nada de interessante naquela pessoa, ou em qualquer outra pessoa andando, nem naquela menina de all star branco, nem na mãe com seu filho loiro e chorão, a não ser o fato de que eu nunca pude e nunca poderei conhecê-las.

Existe tanta gente no mundo com a qual eu nunca vou poder conversar, nunca vou poder ouvir a opinião, nunca vou saber o nome e nem dizer oi. E isso me dá aflição.