Monday, June 25, 2007

About a girl

Entre o sofá rasgado e a mesa de canto inteira feita de mármore e o cinzeiro de vidro ela ficava sentada, em silêncio, a cabeça baixa fitando o chão perdida num pensamento qualquer. Tudo enganava: se não fossem os sapatos vermelhos devidamente lascados no bico, seriam então os cabelos loiros, lisos demais para ficarem despenteados. Tudo nela era incerto e enganava. A fumaça saindo pelo canto da boca, o batom cor-de-rosa, os olhos verdes, as mãos cheias de veias, a enumeração constante de substantivos. A ironia.
Nos dias de semana ela ficava abaixada no canto da sala, atrás do móvel de madeira marfim, esperando o dia passar. Talvez ela nunca estivesse sóbria o suficiente para passar junto ao dia, talvez o motivo fosse outro qualquer. É fato, entretanto, que ela estava sempre ali, e isso era de segunda-feira de manhã até o final dos dias úteis. Depois ela levantava, porque como dizia o Renato, era muito importante fazer sala para os convidados. Não que nenhum convidado ligasse para essas coisas, muito pelo contrário.
Acho que ela queria sair e viver, e não ficar sentada ali. Porque simplesmente há tanta coisa que se pode fazer e o mundo gira tão depressa e é tão cheio de lugares. Eu me lembro de entrar naquela casa e encontrá-la sempre lá, no canto das almofadas cinzas, um maço de Lucky Strikes na mão e o sorriso devidamente amarelado. Ela era linda demais, se não me engano comentei isso com mais de duas pessoas diferentes. Cheguei a perguntar para o Renato como é que ele podia namorar uma mulher tão bonita como ela e não lhe dar valor nenhum. A resposta, qualquer que tenha sido, agora já não importa mais.
Eu fiquei sabendo que ontem ela morreu, no Rio de Janeiro.
Ele me disse que foi de overdose.
Eu acho que foi simplesmente porque ela estava exausta de viver sentada no canto escuro de um quarto aleatório. Ela queria sair correndo e não sabia para onde.
Correu para o lado errado.