Tuesday, June 19, 2007

O amor acaba

"nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes;"

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Mas e se o meu não acabou ainda? Daí me enfiam aonde?
Escondida embaixo da escada, dentro do porta-malas?

Agora você vai ter que fazer silêncio, Marina, porque se você ficar falando ele vai perceber que você ainda ama, assim, desesperadamente.
Que você queria que ele ainda estivesse sentado te esperando.

Mas só se espera quem é muito importante, mulheres que são o amor da sua vida, daquelas que andam de batom vermelho e o cabelo esvoaçante, daquelas que te deixam em êxtase em poucos segundos com apenas um olhar e uma palavra.

E você não é esse tipo de pessoa, você e essa sua verborréia irritante, você não é o amor da vida de ninguém.

Ele não ficou te esperando e nem deveria.

Mas e se o meu amor não acabou ainda, me enfio aonde?
Em qual canto da tela eu vou me encaixar, atrás da parreira, na beira do lago refletindo o castelo?
Não pertenço nem mais ao que não é real.
Quando não me resta nada, só o amor não-correspondido, eu me enterro aonde?

Você não sabe se não é correspondido. Talvez devesse perguntar.

Mas não.
Dessa vez, você prefere fazer silêncio.
E você nunca faz silêncio.
Nunca.
Até me dói ouvir a sua respiração, assim, entre as sílabas curtas.