Saturday, August 30, 2008
Suportando-te
Acho que ela estava terminando de atravessar a rua e eu estava terminando de tomar um chá de laranja. Nós tínhamos apagado nossas luzes. Era triste o fim do começo. Era triste porque ficávamos sentados no escuro tateando os papéis amassados e pensando nos sonhos que haviam se perdido por entre as curvas da estrada. Eu não queria ir pra nenhum lugar com ela, se bem que eu queria tanto ir para algum lugar que era muito capaz de aceitar qualquer coisa. Não esperava isso da vida. Achava que íamos acabar sendo outras pessoas: pessoas melhores umas com as outras. Mas somos sempre a mesma coisa. Ela tinha apagado o Marlboro na mesa de mármore. Eu olhava praquelas unhas vermelhas e eu era um isqueiro. Acho que estávamos falando sobre a vida. Na verdade, não estávamos falando sobre nada. Eram palavras jogadas aqui e ali e ninguém importava-se muito com seus significados. Não esperava isso dela. Achava que ela ia ser diferente, porque era toda uma pessoa nova cheia de lugares onde eu podia depositar minhas insustentáveis expectativas. Era triste o começo do fim. Eu já nem queria ver ela de novo, mas quando eu ia pra longe eu via o ombro dela encostado na cadeira, e eram três horas da tarde e eu não conseguia parar de me importar. Nem era amor isso, era só aquela vontade louca de machucá-la e depois sugar tudo o que ela tivesse pra me dar, na ânsia de depois descartar toda a sua existência de dentro de mim. Eu precisava me satisfazer dela e me enjoar dela, sentir nojo dela e nunca mais precisar querer ela de novo. Tanto fazia. Ela estava terminando de sumir pela porta de vidro e era tão bonita em seu pedestal.