Wednesday, August 06, 2008

Rápido

Eu queria te escrever inteiro na primeira pessoa. Seu vermelho escuro e seu verde musgo em cima do meu preto, e o que sobrava do vinho na madeira do armário ou no canto da sua cabeça. Meias brancas e a janela embaçada, e as cortinas amarelas, os cílios, os livros embaixo da cama, o cinza escuro escorrendo pelas paredes brancas do lado de fora, o vidro fosco do banheiro, o som de todo o ensurdecedor silêncio, as mentiras que contávamos e sabíamos que contávamos, e no desespero da vida mentíamos mais só porque o cheiro da verdade era forte demais pra suportar. Mas eu sempre fui verdadeira com você. Eu sei que você entendia todos os significados por trás das palavras nas quais eu tropeçava, e você era meu dicionário. Eu queria escrever você todo na primeira pessoa do singular, longe de mim, longe de todos, só sua existência permanente e perfeita. Sempre te achei tão perfeito; E mergulhava nos seus defeitos numa sede inexplicável de precisar te possuir, de precisar te ser e ser muito mais pra te merecer a cada instante que você pisava em cima de mim. Todo o seu marrom com tons de rosa claro, e o azul profundo com risca de giz, as letras grandes e douradas, o sorriso idiota em cima do meu mais idiota ainda. Corria pra abraçar sua presença, e só hoje eu percebo que você nunca esteve lá. Você sempre foi meu pretérito imperfeito. Menos que isso, nós dois erámos quase um passado do subjuntivo. Não importa mais. Se eu pudesse fazer diferente, diria que só o seu cor-de-pele e o roxo escuro contra o meu cinza ácido de nuances verde-claras já é o suficiente. Nada que você me desse já era o suficiente. Então eu espero que tenha dado para entender porque é que eu fui embora. Eu nunca posso escrever ninguém na primeira pessoa que não seja eu, seria extremamente injusto diminuir toda a minha vida só para encaixá-la na de outra pessoa.