Sunday, August 10, 2008

07-08

Era o vaso vermelho em cima da mesa. Um copo.
- E agora?
Não sabia.
- Não sei.
A madeira muito escura manchada. Uns riscos na sua perna.
- O bom da vida é isso.
Mas é lógico que as palavras escapavam antes de eu conseguir pensar na forma delas.
- Não quero te escutar agora.
Não queria mesmo.
- O bom da vida, Marina, é que ela sempre continua.
Até não continuar mais, não é não?
- Até não continuar mais.
O piano estava matando as notas musicais que flutuavam na sala.
- Vamos parar.
Uma risada.
- Não, vamos continuar. Quando você me quiser de novo, minha casa fica logo ali.
- Ali?
- Atrás da sua rua, Marina.
Eu adoro quando me chamam de Marina. Ainda bem que eu meu nome é Marina.
- Eu não quero mais nada de você.
- Você nunca quis nada de mim.
- Verdade.
- Eu te inventei. Quero ver qual vai ser o rosto que você vai encarar no espelho depois que eu for embora.
- Vai ser o mesmo. Mas eu deixo você me assinar.
- Marina
- É
- Você é minha.
- É um pouco pior que isso. Eu sou uma televisão: cada pessoa inventou uma parte minha. Sem as minhas pessoas, eu não seria nada.
- Vou embora agora.
Eu odeio gente indo embora. Eu odeio gente indo embora.
- Tchau.
- Ah Marina. Você vai me ligar?
- Não.
Eu nunca quero o que eu posso ter.