Tuesday, August 19, 2008

Pêssegos

Rosa estava sentada na calçada olhando as pessoas na rua. Violeta espiava o movimento da vida pela janela, atrás das persianas verde-musgo. Eram pernas e braços em perfeita harmonia caótica, que é como é o andar da gente apressada mesmo. Pasta preta, sapatos marrons, a sujeira na sarjeta e os mais variados sons do sussurrar alheio. Basta um olhar mais sincero pra enxergar no colar singelo da moça atravessando a rua toda a alegria não vivida que habita o fundo das pupilas de qualquer um. Foi quando um carro prateado estacionou na esquina que os ânimos levantaram-se. Saiu dele um homem alto, mas não era alto. Meio gordo, só que olhando por um certo ângulo era meio magro. De grandes olhos, só que estavam estes sempre fechados. E mãos gigantescas guardadas em seus minúsculos bolsos da calça cáqui. Caminhou devagar e entregou a Rosa uma bola de gude azulada. O que ele suspirou foi a verdade, e foi no arfar de seus pulmões que ele disse que o mundo inteiro é menor que aquele presentinho. Não era nada demais dizer aquilo. Violeta, por trás das persianas, sabia que eram mesmo as coisas pequenas da vida que acabam crescendo muito mesmo e ficando maiores que as coisas enormes. Mas o fato era que Rosa não havia entendido nada, e o caramelo de seus olhos refletiu no vidro do objeto por infinitas vezes antes que ela desistisse de ficar sentada ali no meio da multidão.
Bem mais tarde da noite, quando já era quase a hora da lua cheia ficar certa no meio do céu laranja, esmagada contra seu travesseiro, ela não conseguia parar de pensar na tal bola de gude. Sonhou com uma que fosse do tamanho do planeta. Acordou pensando em mil delas envolvendo seu apartamento. Assim nessa aflição passaram-se dias, meses, e por fim um ano. E foi de fato quando a primavera voltou a iluminar o asfalto frondoso da ladeira de sua rua que Rosa encontrou o homem do carro prateado de novo. Numa mistura de emoção com ansiedade, logo foi perguntando-lhe por que é que a bola de gude era maior que o mundo inteiro. Antes que o homem abrisse a boca em resposta, a moça já ofegava: seu coração nem podia acreditar que finalmente resolveria aquele enigma.
- A bolinha de gude é menor que a menor coisa que você possa imaginar. Ela só não é menor porque se fosse, não seria.

Violeta, por trás das persianas, sabia que eram mesmo o que mais ocupa nossa mente que revelava-se insignificantes no fim das contas. Dessa vez, Rosa havia entendido tudo. As nuances da vida não são pra serem pensadas. Se fosse pra ser assim, não seria. Seria só pensamento, e a falta de coisa vivida.