Tuesday, August 19, 2008
Es
Então ele entrou pela janela e desligou minha televisão. Escondeu-se atrás da porta, só pra vir falar no meu ouvido enquanto eu dormia. Ele disse que quem eu era, eu não era mais. Tudo ia ser outra coisa qualquer. Se eu olhasse no espelho, não ia nem conseguir acreditar. Não acreditei. Já acordada, acho que andei até o final do corredor pra encontrá-lo enrolado entre as almofadas do sofá. Seus olhos eram todo o oceano de serenidade: nada o preocupava. Entrei embaixo da água quente do chuveiro e ele veio me avisar que eu não existia mais. O ralo banhava-se sozinho. Dessa vez fui encontrar seus pés embaixo do fogão: ele gritou que estava pegando fogo. Meus dedos eram só um sopro contra as suas labaredas, e faltavam-me todas as ações do mundo. Eu era só uma pessoa sentada na mesa enquanto você falava sozinho. Tive certeza que não falava comigo. Eu não entendo as pessoas direito, mas ele era óbvio demais pra lançar dúvidas. Coloquei todas as suas partes dentro das gavetas do lado da minha cama, só pra poder me encaixar nelas depois. Então ele saiu pela porta da frente e eu liguei minha televisão. Pouco importava com quem você estava falando. Eu sou um pouco desimportante mesmo.