Enterra seus pés na areia. O que foi que eu fiz para merecer ser feliz, se eu só te pego pelos cabelos, rio da sua cara, a praia a noite tem bichos, eu não quero andar sozinha, segura a minha mão. Não é possível ir embora dessa maneira, a nossa amnésia é articulada. Eu te esqueço você me esquece eu te lembro você me lembra eu te esqueço você me lembra eu já amo outras pessoas. Nosso futuro, na mesa do bar, contrabaixo, nosso futuro eu digo que foi o nosso passado, e você ouve jazz por causa de mim, e você cresce a barba por causa de mim, e você sabe gritar por causa de mim, mas não, eu não quero fazer um texto fofo sobre o nosso amor. Eu preciso escrever sobre outras pessoas. E tem um copo de whisky pela metade, sujo de batom, esquentando na mesa, fazendo um arco sobre o meu corpo, no ritmo daquela corneta, eu não sei ser nada a não ser o teu fluxo de consciência, os saxofones prateados me dizendo que eu devia te recusar. Como diria o Bob Dylan. Eu sei que eu morro porque eu ando enjoada de ouvir as minhas músicas de sempre. Talvez você não tenha mais nada pra me ensinar.
Eu desço a rua da minha casa vinte vezes, faz sol no parque Ibirapuera, eu não sei mais fazer poesia, eu não sei mais fazer amor, eu não sei mais fazer cinema, eu conto até cem pra dormir, meu corpo esquenta a cama, eu não escrevo mais pra você, eu penso nele, eu não posso pensar nele, paira sobre as nossas cabeças essa névoa ácida que é a culpa e o cigarro, a tua respiração quente contra o meu pescoço. Pela nona vez no dia, eu cheiro bem, você está tão diferente, eu penso nele, você não me responde, eu penso mais, e se à noite, sozinha, eu penso de novo, eu não posso mais sentir culpa se não sobrou sentimento em mim.
Então às cinco da manhã, minha garganta seca, eu não durmo, eu não pontuo minhas frases, eu estou cansada de fazer tudo tão certo. Vinte anos de parágrafo padrão. Eu respiro fundo, meus cotovelos roxos, tem insetos no meu quarto, tem uma mancha no meu lençol e dela sai um cheiro forte, característico, e é a culpa que eu sinto por estar deste lado da cama. Tuas mãos apertam meu pescoço, mais forte, mais forte, você está me sufocando. Eu fico sem ar, mas fico bem, eu olho pra você e penso nele. Não me importa. Dois anos e meio estudando ética, não existe nada que seja desse jeito, você sabe, eu sei, eu me tranco pra dentro, não sai vento da minha janela, eu não termino meus pensamentos, não quero mais saber, eu penso nele, eu pensava nele muito antes, você tem que me entender, por favor tenta entender, as coisas não são assim, eu não posso perdê-lo. Meus olhos ardem, o medo no meu peito arde, minhas unhas ardem, desligo a televisão, entre os meus ombros e o céu de São Paulo eu penso nele.