Wednesday, November 16, 2011

Maupassant

Estávamos eu e você, na beira daquele lago. De joelhos, as janelas do teu carro quebradas, choveu dentro de mim, não sei. Eu entro na água, molho primeiro a cabeça, você me olha, não faz mais sol. Eu tenho frio, eu tenho sempre frio, meus pés não alcançam o chão, você tem olhos tão azuis, e a lama. Eu não posso mais olhar para o céu. Hoje está muito claro, a tarde morre em três cores, não temos o que fazer.
No escuro, são quatro horas, eu não te enxergo mais, você segura a minha mão. Seus dedos são finos. Chove no teu carro, chove nas nossas caras, alguma coisa em mim está ficando estragada, é uma espécie de mofo, é uma espécie de câncer, é essa água fria, é só isso, a gente não entra embaixo d'água juntos.
Eu nunca soube te amar. Tem essa luz difusa que vem da janela, ilumina o seu rosto, ilumina a minha perna, e é muito azul, é quase um neon, você me olha, você morre nos meus braços, seus cabelos são tão pretos, você morre dentro de mim, e de repente você é tão nítido, de repente você faz todo o sentido, você parece um desenho, você parece uma pintura, o seu nariz, meu amor, o desenho das tuas costas, estamos mortos, incrivelmente mortos, nosso amor foi esse processo, todos esses anos de silêncio que não foi quebrado.
Ficamos só com o medo. Suas unhas amareladas. O sofá da sua sala, a janela, fecha a janela, a luz, apaga a luz, a verdade, cega essa verdade, meu amor. Tem esse farol ligado, pisca contra o teu rosto, essa luz do fim da noite, todas as sombras são vermelhas, ninguém sorri. Quanto tempo nós passamos dentro desse carro. E agora isso, algo nele apodrece, eu tenho essas marcas na minha pele, eu tenho essas marcas na minha perna, essas cicatrizes, você sabe, só você sabe, mas eu não tenho mais medo de mim.
E se você me pergunta, como quem não quer nada, "Por que é que você fez isso?"
Eu queria conhecer o pecado. Você sabe.