Thursday, October 27, 2011

Pois não

Você não tem às vezes uma sensação muito estranha de que passamos todo esse tempo mentindo um para o outro? Eu tenho.

Na rua, quando você anda muito, seus pés fazem bolhas. Minhas bolhas doem por três dias seguidos antes de melhorarem, mas desde quando alguém liga pra essas coisas? As pessoas, bom, as pessoas são uma outra coisa. Olham pro chão. Me olham no olho, mas não todas. Atravessam a rua, esperam o táxi virar antes de passar, dão licença, pedem ajuda para o Greenpeace. Juntas, formam aquela massa disforme avenida paulista, dessa cidade que a cada manhã eu sinto que me engole, perdidas na fumaça, ipod, bilhete único.
Mas tem uma mulher. Ela é diferente. É uma mulher esperando um ônibus na Bela Cintra. Inteira vestida de preto, olha para os dedos dos pés, encara a rua, respira alto. Me olha às vezes. Mas como ela é bonita! Franze a testa, muito séria, procura algo na bolsa. Eu me pergunto se ela percebeu que eu estou a olhando. Ela é outra coisa, sabe, ela muda a música do mp3. Está ouvindo a mesma música que eu. Tenho certeza. Daí eu rio dela, rio pra ela, Princesa Isabel chega, ela vai embora, São Paulo chove até quando não chove.
Eu tenho certeza de que eu queria contar uma história quando eu sentei aqui, eu tenho certeza que sim, mas agora eu só consigo pensar em como meus pés doem. Essa casa tem cheiro de produto de limpeza. Mas dá medo que as paredes mofem. Você não tem uma noção, sabe, você não faz idéia de como é viver nessa São Paulo que eu vivo, isso daqui é o cu do mundo, eu te garanto. Mas na rua nós temos pessoas, sabe, dos melhores e dos piores tipos. Enquanto houverem pessoas, há esperança, creio eu.