Minha analista, como boa lacaniana, veio um dia pra cima de mim com a observação genial "Você já reparou quantas vezes você fala 'não sei' ou classifica as coisas como 'estranhas' no seu discurso, Marina?"
Eu não soube fazer muita coisa a não ser responder "É porque o que eu não sei normalmente eu acho estranho, sei lá".
Tinha, se eu não me engano agora, vinte anos de idade, muita espinha nas costas, o cabelo crescia até depois do fim do pescoço, encostava pra trás na cadeira de seu quarto. Mordia a ponta do lápis, a tinta da parede descascava, lá fora fazia sol e a luz entrava no quarto de um jeito meio difuso porque os vidros estavam sempre muito empoeirados, muito barulho, cera no ouvido, roía a ponta das unhas, menos o dedo mindinho. Nada disso tem mais tanta importância.
Quando amanhece, da janela, o asfalto brilha por causa da chuva da noite anterior. Se estica, na cama, amassa os lençóis, pés pretos de andar descalço o dia inteiro, uma espécie de terra entre os dedos, fica em silêncio, respira fundo, no fundo da sua cabeça uma guitarra. Não sei. Acho que ele é um vício de linguagem meu. Ele é mais homem do que você jamais vai ser.
Acorda, anoitece em mim, sai pela mesma rua de antes, a mesma rua de todos os dias, troca uma nota de cinco por moedas, precisa ficar quieto toda hora. Ele é um pouco estranho, penso eu, atravessa a avenida, o céu de São Paulo fica alaranjado de madrugada por causa da poluição. Provavelmente pela última vez. E fica se repetindo, me olha, meu pai é ladrão mas eu vou ficar e rezar do lado dele até o fim.
Abre a porta vermelha e anda, devagar, pelo corredor de azulejos, talvez nunca mais ande pelo mesmo corredor, mas o que nos importa agora é a dúvida do eterno retorno. Voltará ele para me ver ou a porta automática de vidro vai se abrir, ele me dar as costas, e sobrar só o cheiro de pescoço? De novo, como sempre, quando se passam seis meses eu esqueço já os traços do seu rosto.
Ele sorria diferente, não saberia explicar, tem um revólver tatuado no antebraço, Crosman 357, me contou uma vez, me contou duas vezes que o céu é um lugar aqui na terra, do teu lado, meu amor. Não sei. Acho ele meio difícil de compreender. Essa coisa de nunca sair pelo mesmo lugar que entrou. Toma o café com dois dedos de leite mas o uísque é sem gelo. Na teoria, ele é muito bom. Na prática, ele é um pouco melhor. Estava de sapatos pretos, eu me lembro, antes de entrar na antesala principal, aquela que tinha um piano de cauda branco. Talvez pela última vez. Ele pegou um vôo em setembro pra Chicago, chovia em São Paulo, chovia nos Estados Unidos, acho que chovia na praia também, o guarda-chuva quebrado, alguma música péssima tocando no rádio, eu tinha um futuro pela frente, ele disse, ele não. Ele tinha um passado pra carregar e só.
Antes de ir embora, no saguão, me parou. Tentava olhar nos olhos mas essas coisas às vezes são muito complicadas. Tinha ido, sabia, pela última vez, e precisava fazer qualquer coisa que fosse importante antes desse final. Deu três passos para trás, pensando talvez que estivesse em um teatro, me deu as costas, contou até dez, na ASA C do aeroporto de Guarulhos, virou pra mim, mirando minha testa, acho que eu só precisaria de um tiro certeiro mesmo.
Escorria uma espécie de suor do seu pescoço, sangue, linfa, não sei. Meu amor, ah, meu amor, você vai embora e eu vou embora e fácil é fingir que as coisas continuam as mesmas. Mas o que nos resta, de verdade, é a surpresa do final.