Ana subia a ladeira da rua de sua casa como se fosse a última vez. O asfalto molhado deslizava sob os seus pés de um jeito desagradável, mas o ar úmido enchia seus pulmões e isso parecia, de certa forma, acalmá-la. Repetia para si mesma que tanto fazia a decisão que tomasse. Que não havia certo ou errado.
Foda-se. Vou só fazer qualquer coisa.
As árvores dançavam com o vento. Era isso, na vida, que realmente surpreendia Ana quando ela menos esperava. O fato de que as coisas, as coisas pequenas, os detalhes, conseguiam ser surpreendentemente bonitos quando não se estava esperando por isso. Até que, entre todo o sofrimento, existir tinha lá seu charme. Sua dor e seu charme, acho que é isso mesmo.
Quando ela estava na frente da porta da casa dele, sentia-se como se um fio percorresse seu corpo, por baixo da pele, e fosse puxado para fora de si pela garganta, alguém o segurava pela ponta do dedo. Olhou por alguns instantes, antes de se mexer, a campainha. Queria dizer para si mesma que não havia nada em sua mente. Que estava tranquila. Mas a verdade é que a imagem da campainha da casa dele, redonda, prateada, um pouco enferrujada nas bordas, com a parede caracteristicamente rachada do lado direito do espelho, aquilo a fazia pensar demais. Era quase uma sensação de que não existia palavra que descrevesse porra nenhuma. Qualquer coisa. Foda-se, eu vou só fazer qualquer coisa.
Dois corpos em um, deitados na rede, fazia sol, olhavam para o céu da noite, de repente, era como se as estrelas fossem capazes de engolir a existência de ambos. Era como se entre tanta merda o amor existisse de verdade, e alguma coisa fizesse sentido. Como ela o iniciou. Tudo que, na vida, eles descobriram juntos, de uma espécie de infância juvenil caminharam para uma vida adulta. E agora, aquela campainha era tudo que restara para julgar sua atitude impulsiva.
Eu cuspo na cara da felicidade! Ha ha ha ha.
Já se passara algum tempo desde a última vez que haviam se visto, ele dirigia um carro vermelho, tão clichê, ela estava sempre com os olhos marejados, como se estivesse apenas esperando uma deixa para deitar no seu colo e chorar. E, se chorasse, ele iria segurar seus cabelos e sorrir pra ela. Não é um choro ou outro que vai nos segurar.
A verdade talvez é que a vida os tinha separado. Se tornaram pessoas tão semelhantes, tão semelhantes, que não podiam mais suportar a presença um do outro. Precisavam procurar outros corpos, qualquer coisa que os fizesse sentir distantes de si, mas acabavam retornando ao marco zero. Quando? Nem era possível dizer quando.
Quem respondia à essa pergunta era a campainha. Os detalhes falam mais alto. Ana buscava no ombro de outros homens o ombro dele. Inventava o amor, como sempre, vivia das suas incertezas, pulava as cercas das casas que a rodeavam, mentia pra si mesma, mentia para os outros, se odiava, no final não fazia diferença. A diferença quem fazia era o detalhe. As pequenas coisas gritavam para ela que aquilo era ainda mentira, que ela tentava se enganar mas estava infeliz.
Talvez ela nunca mais soubesse ser feliz. Talvez fosse esse o motivo da sua existência, talvez só do choro pudesse nascer algum fruto, algum filho, Ana segurava a barriga, sete meses de gravidez e melancolia, a mão tremendo na frente da campainha.
Quem gerou esse filho da solidão fui eu, não ele. Foda-se, eu vou fazer qualquer coisa.