Wednesday, June 03, 2009

Uma nota dez em antropologia filosófia ou "Não, minha senhora, você não vai publicar meu texto", com meu final original e dramático e não o da Thelma.

As pessoas atravessavam as ruas com uma pressa que não possuíam de verdade. Era um pouco difícil entender o movimento desordenado delas, a eterna busca por um distante preenchimento. Cada esquina que eu dobrava parecia a mesma esquina: São Paulo passava sob meus pés em círculos. Precisava de alguma coisa, buscava algo desesperadamente. Faltava-me um pedaço! Difícil era encontrá-lo. Desci a ladeira até o final, observei lentamente a colocação tortuosa dos paralelepípedos da calçada. Entrei na primeira porta vermelha, logo à esquerda.
Uma senhora de cabelos brancos e avental xadrez esperava, com um largo sorriso em seu rosto, um acontecimento. Entendi todas as coisas que ela pensava sem que nada fosse dito.
- Estou esperando algo também! - eu lhe disse, quase que como num reflexo.
- E o que, exatamente, minha filha, você aguarda?
- Não sei bem. Será que você sabe?
Mas ela não sabia. Achei que seria bom ir embora. Deixei o cheiro dos biscoitos assando no forno pra trás, saí da casa e voltei a descer a longa ladeira. No final da rua havia uma árvore de flores amarelas que formavam um tapete no chão. Uma moça passeando com um cachorro. Acho que muitas pessoas observavam nossos movimentos por frestas que não enxergávamos. Ficava difícil continuar andando, daquele jeito, meio em vão, meio sem rumo, não entendendo direito o que é que me guiava através dos caminhos que vinha traçando. Não havia prometido nada à mim mesma. Nenhum sonho me restava. Estaria então eu completa, ou vazia?
Não sei, não sei! Mas algo ainda estava chegando. Eu já sabia. Entrei na loja de conveniência do posto de gasolina. Acho que foi porque queria uma barra de chocolate.
- Posso ajudá-la? - a voz da atendente ardia.
- Pode?
- Desculpe?
- Não desculpo.
Acho que as coisas à minha volta estavam perdendo o foco. O farol estava verde, mas eu ia atravessar. As linhas da faixa de pedestre, grossas e brancas, agrediam meus pés. O céu desabava sobre a minha cabeça. O que era aquilo, aquela sensação? O viver sem sentido? O sentido sem viver? Não conseguia mais ordenar os pensamentos dentro de minha própria mente. Eles chegavam e escapavam tão rapidamente que eu os perdia, os agarrava, os esmagava e não extraía deles qualquer tipo de significado. Acho que foi nessa hora que sentei embaixo de uma árvore.
Onde estava? Acho que era no Parque Ibirapuera. A água fedia à peixes mortos, e o sol da tarde refletia em cada curva das ondulações do lago suas cores. As folhas verdes dançavam em seus reflexos. Todos corriam: tinham a mesma pressa de antes. Pressa de emagrecer, pressa de passear, pressa de viver, mas quanta pressa! Eu quis gritar pra toda essa gente que a rapidez não iria encher suas vidas de significado: o que ela faria seria apenas disfarçar a falta dele. Precisava tomar água de coco.
- Quanto custa a água de coco?
- Dois e cinquenta.
- Dois e cinquenta? - comecei a achar absurdo ter que pagar pra beber água de coco. Comecei a achar que o próximo passo seria ter que pagar por respirar.
- Não quero mais.
- Eu faço por dois reais.
- Não adianta. Não quero mais.
Sentei num banco de pedra, com uma criança de pelo menos uns cinco anos ao meu lado. Ela estava tomando um sorvete. Olhou pra mim com os olhos grandes e cheios de curiosidade.
- Como você chama, moça?
- Já me esqueci. E você?
- Eu chamo Carolina.
- Oi, Carolina. Você tem alguma história pra me contar?
A criança sorriu. Eu sorri mais. Minha cabeça doía.
- Tenho sim, moça. Era uma vez um monstro que morava no Parque Ibirapuera. Ele saía passeando pelo parque a noite e comia os patos da lagoa e pisava nos peixes. Pisava nos peixes porque ele era super grande, sabe? Porque ele achava que ser grande fazia ele ser melhor que todos os outros bichos do parque, mas isso não era verdade. Daí um dia ele percebeu que não tinha amigos pra conversar, e começou a se sentir sozinho. Daí quanto mais sozinho ele se sentia, mais triste ele ficava e ia diminuindo, ficar menorzinho, menorzinho, pequenininho, minúsculo, até que ele ficou tão infeliz que desapareceu, virou uma mosquinha que o pato comeu! Isso quer dizer que não importa o seu tamanh... moça? Moça? Por que você está chorando?
- Não sei.
Já não sabia. Já não me restava nada. Eu não sonhava mais. Comecei a ficar tonta, e o banco no qual eu estava sentada foi afundando pra dentro do chão do parque. Uma pressão enorme sobre a minha cabeça. No começo era ruim, depois fui me acostumando. Perdi a noção de tempo e espaço: estava apenas existindo, num preto enorme, na névoa sem fim, na dor grande.

Acordei. Meus olhos latejavam. Encarava um teto branco, pessoas de branco, lençóis brancos.
- Com licença, por favor, eu estou no céu?
- Não moça, na Beneficiência Portuguesa.
- Ah, sei. Então está tudo bem?
- Vai ficar tudo bem.
Respirei fundo. Sorri, um sorriso de verdade, não aqueles que se sorri de fora pra dentro. Sorri com toda a profundidade que uma alegria podia ter. Tudo ia ficar bem.