Tuesday, June 09, 2009

but right is only half of what´s wrong

Ela piscava e a luz piscava. Suas aparições eram intercaladas por um fundo preto muito profundo. Ela colocava a perna direita pro lado, olhava pra mim - mas que olhos tinha! - e só metade do som da sua voz chegava a meus ouvidos.
"Se... que... ... Antes de am... Nun... Já far..."
Eu pensava um pouco nela e muito no carpete vermelho contra a sola dos meus pés. De todas as lembranças, não imaginei que a que fosse sobrar seria justo essa. Pensava no corredor comprido e nas portas todas iguais, seguindo umas às outras numa uniformização que lembrava um pesadelo.
Sonhei aquela noite com muita gente. Muitas escolas, uma televisão, um filme do Woody Allen, um chuva, e eu estava com frio, muito frio, meu irmão dormindo, e ela na praia.
Eram três fotografias. Uma tirada bem de baixo, contra a luz do sol. Uma bolsa preta no seu ombro esquerdo, um sorriso. Não era nada de mais. Não era especialmente bonita. Embaixo algumas frases, até tentei extrair significados.
Já não sabia. Ela piscava, ela se mexia, estava de costas, olhava pra trás. Franzia a testa. Lembro do ombro direito, da ponta dos pés. Ela estava falando muitas coisas, um milhão de coisas. Sua voz era um zumbido de mosquito, um alarme, sua voz era um despertador, era um grito de socorro, no fim das contas sua voz eram todas as vozes que eu jamais tinha conseguido escutar direito.