Sunday, May 24, 2009

Ter e ser

Na neve os galhos eram dedos flutuando numa lagoa de neblina, para cima e para baixo numa dança lenta e assustadora. A grama brilhava em listras no horizonte do outono. O céu cor de laranja refletia sua luz em três moscas, sozinhas desenhando suas vidas em ar. Tudo era cintilante e distante. O enquadramento mais para a esquerda do feno, a vaca.
O sacudir do carro pela estreita estrada de terra, para cima e para baixo numa dança rápida e apressada. O túnel, o instante negro, o fim do túnel. O fim do túnel era apenas o começo.
O granulado da tela me dava dor de cabeça e ânsia. Era maravilhoso.
Poesia de verdade não se faz com palavras. A poesia está no quadro completo, no movimento, no som abafado de ventania. Está nos pés, no olho, na boca, no chapéu, atrás da porta, a poesia de verdade está no boi, na palha, no som sem significado das coisas que se diz, no vidro da janela, a poesia de verdade está em todos os lugares menos nas palavras.
Daí eu soube porque eu estava fazendo cinema. Aquilo era a poesia de verdade.