Tuesday, May 19, 2009

GABRIEL, O SER QUE NÃO SABE QUEM É

Gabriel acha que pensa que é uma coisa. Vive achando que pensa outra. Acaba sendo uma terceira, um semi ítem híbrido de todas as alternativas anteriores e das notas de rodapé. Gabriel acho que passou por cima da ponte Liberdade, mas isso não tinha nada a ver com sushi. Nada a ver com as nuvens brancas contra o céu azul, e na verdade nenhum característica dele tinha nada a ver com o contexto no qual ele se inseria. Era como se escorregasse até o fim da ladeira, olhasse pros dois lados antes de atravessar a rua e acabasse decidindo dar as costas pra vida e ir embora fazer outra coisa. Eu não entendia nada daquela matemática. Entendia outras coisas, outros detalhes, entendia a sobrancelha, a luz piscando, o litro da cerveja, o azulejo vermelho, a sarjeta, a sarjeta.
Gabriel acha que é uma coisa e corre pra ser outra coisa. Ele pula de janela de apartamento a janela de apartamento achando que vai se encontrar em algum pé-de-mesa. Ele não entendeu nada do que é viver, mas que pena! Ele não entendeu que metade do que se deve fazer é ser, não significar o ser. A maioria das pessoas faz tanto sentido. Amo tanto ele por não fazer nenhum.
Gabriel terminou meu conto atrás de uma cortina transparente, meio cor-de-laranja, sentado num banquinho no canto da sala cantando uma música qualquer do chico buarque, mas era tudo fora de tom. Ele abria uma lata de cerveja e ria da ordem dos acontecimentos, porque no fim de tudo ele tinha descoberto que nada tem meio ou início. Só o final é importante. Ele terminou na banheira azul do banheiro correspondente, lendo uma correspondência e fez algum comentário sobre a importância de saber quem ele era.
Naquela hora eu sabia que eu sempre soube. Gabriel, só por existir, já era uma pessoa toda inteira nos seus fragmentos.