Tuesday, May 26, 2009

Eu era

Eu era a Sylvia Plath madrugada à dentro, eu era a Sylvia Plath na areia da praia, e vendo um tronco flutuar, eu era ela não por ela, mas por mim, porque onde quer que estivesse, não conseguiria escapar de mim mesma. Estava totalmente presa à todas as minhas vírgulas.
Eu era a Sylvia Plath, e muito mais hoje do que ontem, muito mais hoje do que amanhã, eu era muito dela sempre. E era sempre mais dela quando achava que não seria mais, quando achava que tinha esquecido tudo, e mais da doce tristeza dela me atingia e me puxava pelas pernas e gritava no meu ouvido um grito agudo e irritado.
Eu era cada poema dela não pelos poemas dela, mas pelos meus. Não pelos personagens dela, mas pelos meus. Pela Júlia. Sempre pela Júlia, JÚLIA, por onde você anda? Quando foi que seus olhos verdes (azuis?) desapareceram?
Dentro da São Francisco eu sou a Sylvia Plath. Dentro da sala de jantar, em frente ao espelho, eu vou ser a Sylvia Plath, eu vou engolir a solidão dela no café da manhã, no almoço e no jantar. Ela vai deitar do meu lado quando eu for dormir.
No silêncio da noite escura, de lado, eu sou a Sylvia não por ela, não por mim, não pela Júlia, mas pelo caminho. Eu sou a tempestade batendo no vidro da minha janela, o carpete, o verme, a madeira, eu sou absolutamente tudo à minha volta, eu sou você, eu sou inteira você em tantos momentos mas principalmente eu sou a Sylvia Plath, com a cabeça no fogão, beijando os filhos antes de dormir.
Não por ela, não por mim, não pela Júlia, não pelo caminho, mas pela profundidade do meu caminho. Preciso apanhar pra aprender, e a dor da derrota é como o gosto salgado de uma lágrima, deprimente mas delicioso no seu modo particular de existir.
A Sylvia Plath antes de qualquer outra pessoa porque ela como ninguém entende o quanto a alegria pode ser carregada de um sentimento extremo de sufoco. Ela sempre vem apertar meu pescoço quando eu penso que estou ótima. Ela sempre vem me lembrar que as pessoas à minha volta tem uma importância muito pequena, porque eu nunca vou poder enxergar elas completas como são, e estou fadada a apenas absorver atrás do filtro da minha existência suas partes embaralhadas.
I am, I am, I am.