Nos nós da tua garganta, a minha ainda tinha
aquele gosto característico, meio sal, meio álcool
O resto da saliva represada no canto da tua boca
Atrás do dente, entre dois molares você era
uma pessoa tanto quanto eu nunca pude ser
aquela tua última amante, e sem fazer jus à palavra
Te desejar não é mais o que me resta, não é mais
o que te reconforta, teu nome, tuas sílabas.
Na entonação eu te invento, eu perco
todo e qualquer vocabulário que houvesse, pra te
descrever essa sensação é impossível em impossíveis
olhos que refletem a luz. Foi tudo mentira.
E no teu pé debaixo no cobertor, no teu pé direito
duplo, a luz refletida na parede branca, branquíssima
Tua refinada arquitetura, a curva das costas
As exatas quinze pintas que você tinha, e eu contei
com essa ausência, desespero, para que ela me trouxesse
algo, mas a falta só gera a falta maior.
E eu não preciso mais deles, vinte e sete
Não quero mais você, qual o teu número mesmo?
Eu só posso estar com esta última pessoa, esta única
verdade que eu ainda tenho, entre tudo que é falso
Tudo que é vão, e eu digo da boca pra fora, completamente
Na patética esperança de obter sobre ti qualquer poder
Qualquer reação, eu só posso continuar
com o que eu sei que existe em mim, esse sopro de ar
contínuo, que dói, tosse crônica, essa bronquite asmática
Comigo, eu sou a primeira, eu sou o ponto final
Não há como escapar dessa presença inviável.
Não há como engolir essa bolha de fumaça que você
construiu com tanto esmero, meu amor
Eu não presto mais.
Nem pra ti, nem para os outros, não me restou nada.
Eu só posso ser isso, eu só posso ser esse exoesqueleto
E rezar pra que nas minhas costas você crave
Nada mais que unhas. Nada mais que dentes.
O que mais é necessário agora, ao inverso desse
amor-resíduo que paira sobre os nossos cabelos
É o ódio completo, sobre as minhas cordas vocais
Os teus dedos de unhas mal-cortadas
Porque foi nossa culpa, não minha não tua
Das coisas não terem nem ao menos, nem no mínimo,
acabado, mas apenas se dissipado
como se dissipa um fio de névoa na manhã da praia
Nossa mesma praia, todas as vezes.
Como se dissipam nossos sorrisos boiando, no oceano
O que tinha de amor entre nós nem ao menos se deu
ao luxo de desmoronar.
E saiu, você, como ele antes, como ele antes, como ele antes
Pela porta da frente, sorrindo, e o que eu sinto
nesse caso, não importa mesmo.
Eu mereço estar sozinha. Esta pedra esteve me esperando minha vida toda.