Os mortos parecem terrivelmente mortos quando estão mortos.
Sunday, February 20, 2011
o fio da navalha
Eu deitei meu corpo inteiro contra o asfalto quente, saía pelos meus dedos aquela linfa. Não há experiência que se equipare a esta. E me arrastei pra fora do chuveiro, a água quente, azulejos, os joelhos doloridos e azuis, nua, como um bicho, como quase nem um bicho, deixei minha cabeça contra o tapete, respirei fundo, e como é horrível, às vezes, respirar. E já a pele queimada pelo calor, já rasgada pelas minhas próprias mãos, já o corpo inteiro pulsando a última pulsão, a única coisa, a vida, o medo da vida, já sem nem saber por quê, eu levantei. Tudo eu enxergava apenas pela principal diagonal, e sem foco, e sem graça, e sem você eu não deveria mesmo ver as coisas e extrair significado delas. Acho que pela primeira vez depois de tantos anos eu realmente senti, de verdade, que o seu corpo ia embora de dentro do meu. E nada jamais se equipararia a isto, à sua presença, na minha vida, todo você, suas coisas, sua voz, mas não importa mais, porque é isso mesmo, nós vivemos e continuamos, e tudo que uma vez foi tão quase bom agora apenas paira sobre a minha cabeça como essa névoa, água turva, marrom, escorrendo da pia do seu banheiro, não podemos mudar o passado. Só que as outras pessoas não vão me entender, não como você o fez, não como você me quis, e quando eu caí no chão, no meio do corredor, pela primeira vez, nossa primeira vez, era a arte barroca, eu ofegante no sofá, era óbvio que a nossa vida juntos não poderia ser qualquer outra coisa. E quase caindo na mesmice eu penso que nem te disse adeus de verdade, nem te dei a chance de se apaixonar de novo, por outras, como se no fundo meu desejo fosse teu coração preso ao meu, mesmo que nunca juntos, mesmo que tão distantes, que sempre você soubesse que eu sou melhor que as outras, e eu sou melhor mesmo, e nunca haverá nada que se equipare, mas isso não faz mais diferença. Todo o dia de manhã nós acordávamos e erramos, sim, fomos a mesma pessoa, somos a mesma pessoa, uma delas morre quando atravessa a rua, e a outra não atravessa a rua, simplesmente. Mas ela não poderia saber o que tinha evitado. Você escreveu sobre mim, e não quer me mostrar, e eu também não vou mostrar nada, disso tudo não restou nada, nem uma gota, nem ódio, nem rancor, nem raiva, nem amor, quem sabe, nem isso, até a última gota drenamos esse sentimento e agora, agora, agora eu acordo, me estranho, não sei mais onde eu termino e você começa, não quero me apaixonar por outros, mas não posso evitar a insensatez, eu começo. Você termina. Você termina onde eu começo. E eu deito meu corpo inteiro, o suor, contra o chão de carpete, estico os braços, eu quero ser uma ponte, os pés completamente cortados, faz frio, para mim sempre faz frio, e vaza pelos meus ouvidos essa linfa, esse líquido que é quase um resto teu em mim, como um bicho, como um cão, eu morro, eu preciso.