Tuesday, March 01, 2011

Enfim a voz firmou contrato

Eu tenho todo esse corpo dentro do qual sou livre para vibrar. E essa voz, essa voz aguda, eu ainda tenho, e com ela eu grito. Eu tenho essa intenção, que me leva à algo, como uma força gravitacional, está fora de mim, impossível impedi-la, e eu ando em direção de novo à porta.

Ela acorda no meio da noite, falando sozinha, e sempre, sempre fala sozinha. Me diz que está esperando chegar no fim da escada, e briga comigo. Eu brigo mais, tenho raiva, tenho uma raiva dela tão grande que chega a ser uma ânsia de vômito, essa necessidade de sempre me reaproximar, de sempre fazer as pazes, desse círculo de relacionamento, que não importa, no fundo vamos sempre nos amar igual.

Mas aqui, nesta casa, no meio de tanto mofo, e a pilha dos livros que a cada dia fica mais desorganizada, todos os papéis, aqui eu ainda tenho esse lar, esse teto, esse ar que eu respiro e fico zonza, essas duas mãos com as quais eu ainda consigo, eu posso, formular, o que seja. Compro livros que eu já nem sei mais o nome. Nunca poderei ler todos. Nunca poderei ter você inteiro, você me escapa, você me escapa completamente, mas nesta casa, o pó desenha a tua face, meu amor. E no meio de tanto ódio é que brota esse tímido amor, quase patético, a flor no asfalto, o desejo que é menos um desejo e mais um nojo, mas está ali. E vive.

Dentro há tanto coisa que não passa pela porta da frente. Eu precisaria, para remover tudo, içar itens pela janela, derrubar algumas (ou todas as) paredes, talvez até um pouco do teto precisasse ser removido, e mesmo assim não haveria garantia de que tudo seria retirado em segurança. Na viagem poderia o acaso destruir alguns pedaços da mobiliária. Eu preciso me expressar, eu tenho tanto para expressar, eu tenho tanto pra te dizer, ainda, em todas essas madrugadas vazias, mas eu sou tanto de mim mesma, eu sou tão intensa, que eu não consigo nunca escapar do pensamento (e este, sim, me martela) de que você não vai aguentar.

Por isso, só por isso, eu fico nesse corpo, que é o que eu tenho, e dentro do qual eu vibro, e posso assim vibrar mesmo. Minha voz, ainda não rouca, quase esganiçada, desta eu não abdico nunca, e grito. Grito o seu nome, não posso mais te impedir de ir embora, mas vou em direção à porta.
Sim, meu amor, você ainda precisa ter um pouco de amor-próprio. E eu também. Mas nós nos amamos mesmo assim, então será que a sua afiada lógica vence ou não a minha inundada irracionalidade?