Saturday, May 15, 2010

Você não gosta de mim

Eu não consigo mais falar de palavras. As letras tornaram-se deveras abstratas frente à vastidão de significados que eu descobri. Preciso falar de imagens, por mais desconexas e simplórias que elas sejam. Eu preciso falar de imagens porque eu preciso falar. Eu preciso falar, eu preciso dizer, eu preciso falar, falar, falar, falar, falar, falar, falar, falar.
É minha vez.

O céu estava muito pesado. A qualquer instante poderia, sem aviso, desabar sobre nossas cabeças. As nuvens cinza-escuras corriam ácidas contra o branco dolorido. O asfalto, a tinta amarela, a grama verde. O mundo passava rápido, e nada mais seria dito. Ao invés de fugir do passado, corríamos para o futuro. Havíamos nos esquecido o quão importante era acreditar que as coisas podiam mudar. Não nos resta nada além do sonho, então é exatamente no sonho que viveremos. O menor sopro de vida, o sopro puro da vida, é maior que qualquer abismo de morte. A vida é forte, há muita força dentro de nós. Qualquer coisa que funcione é válida.
Os dedos dos pés dele sobre o vidro do pára-brisas formavam marcas de suor. Todos os detalhes pareciam de repente muito gritantes. A luz que piscava do rádio, o chiado da música que tocava, lenta e desafinada. A borracha que gemia contra o vidro, espalhando a água da chuva pelo carro. Os pequenos fios, que, costurados juntos, davam forma ao forro do banco. Cada espaço entre eles crescia, tornava-se enorme. Há muito vazio entre as coisas que nos cercam. Há muito vazio entre o chão que passa rápido sob nossos pés e o ar rarefeito que finge preencher nossos pulmões. Mas também neste vazio há beleza. Porque o belo está exatamente nas coisas vistas de perto: e os buracos que antes cobríamos com tanta tralha e lixo, enchendo de um entulho desesperado por esconder suas existências, agora encontram-se abertos. E escancarados, assim, sorrindo com toda sua dor para os nossos corações inocentes, os buracos não parecem tão ruins quanto pensávamos. E para cada vão há milhões de partículas do sublime invisível, do que ainda não aprendemos e nem pensamos em apreender.
A vida não pára. Ele me perguntou do que tínhamos medo.
"Vocês têm medo de morrer? Eu sou morto"
A vida é muito mais que respirar. A vida está em um espaço distante desta pequena tecnicalidade. Respirar é um simples detalhe. É engolir um pouco do vazio que nos cerca, para que possamos enxergar a beleza que desconhecíamos.