Saturday, May 15, 2010

Um pouco fica na embocadura dos rios


Caro Abelardo,
Depois de tanto tempo sem contato, sem mandar notícias, sem dizer onde estou, agora escrevo por uma razão única. Nosso bebê nasceu. Foram quinze anos de longa gestação, e mais três anos de trabalho de parto, mas ele finalmente nasceu. É um pouco gordo, e não é muito bonito, mas está saudável e já se amamenta. Os dedões dele parecem com os seus. Os olhos são como sementes de papoula: venenosos. Ele bebe leite do meu peito até os meus mamilos sangrarem, e também gosta de comer amendoins torrados. O médico disse que não há risco nessa dieta peculiar. Ontem ele teve um pesadelo durante a madrugada e gritou seu nome, Abelardo. Rolou no chão pelos corredores até minha cama, e puxou meus lençóis. Eu acordei e observei por um tempo seu corpo inchado, com veias azuis, os lábios amarelos por causa da bilirrubina. Tremendo no chão, pulsando, ele parecia um fígado. Ele me contou pela manhã que estava com muitas saudades, por isso eu o coloquei em uma caixa de papelão (não se preocupe, eu fiz furos na tampa para que ele respirasse) e o mandei pelo correio para sua casa. É provável que essa carta anteceda em alguns dias a chegada do bebê, por isso prepare um quarto e uma cama para ele. O pequeno não usa privada e nem fraldas, por isso eu costumo colocar jornais no chão para que ele os use ao defecar. Ele não o faz em jornais antigos, apenas nos jornais do dia, por isso eu aconselho que você compre três ou duas edições de cada marca, por dia. Ele também gosta muito de brincar com hamsters, mas só o dê um se ele se comportar bem. Mantenha sempre a porta de seu quarto aberta, porque durante a noite ele gosta de rolar pra cima da cama.
Eu também sinto sua falta, Abelardo. É triste pensar como nossas vidas tomaram rumos separados, mas as coisas são assim mesmo. Por favor, mande-me notícias de nosso filhinho.
Com amor,