Friday, December 09, 2011

well now you never show it to me, do you

Nove e meia, ele diz, acorda, uma fresta de luz batendo bem na sua cara, respira, não sabe, liga o chuveiro. De novo, como se não soubesse, assiste por um tempo a água que escorre do seu pé pro ralo, escova os dentes, o mofo do espelho, pára pra olhar seus olhos. Têm algumas coisas que ele queria falar mas não consegue mais. Acho que talvez tenha perdido a vontade. Da varanda, faz sol, aquela coisa pequeno burguesa de pessoas fazendo jogging de manhã, tomando nespresso, não sei. Talvez falte alguma espécie de sujeira. Ele diz, nem diz, quase grita, que chuva, que chuva, que chuva fenomenal que está caindo hoje, meu amor. Pelo menos quem sabe não acontece da chuva lavar alguma coisa, nossas almas, gargantas, esse mijo que fica acumulado na calçada, quem sabe não calha da chuva fazer a gente dizer a verdade um pro outro. Impossível. É esse seu joelho, tem alguma coisa no joelho dele, não sei, quando você coloca a mão sobre o joelho dele, ainda tem alguma coisa que nos mantém ligados. Acho que é um tipo de tópico frasal, uma dissertação que escrevemos um sobre o outro todos os dias, e as palavras morrem quando elas saem do papel, as palavras sofrem e morrem, saem de dentro de mim e morrem, e Maugham já disse sobre a morte mais do que eu poderia. Ele ri. Ele ri, sempre, da nossa triste tentativa de inteligência, da varanda pequeno burguesa, do mofo, todo lugar tem mofo, do lençol que escapa pelas bordas do colchão, ri de qualquer coisa, tem uma fresta luz no rosto dele, nos olhos azuis, ele é tão bonito, ele é tão incrivelmente bonito sempre, mas de quê isso adianta? Respira, não sabe, liga o forno, mais uma vez, como se não quisesse, fica um tempo olhando para a chave no contato do carro, não dá partida, às vezes simplesmente não consegue dar partida, dividir frases de uma maneira lógica, falar comigo normalmente, incompreensível. Será que o problema não pode estar, e pergunta, na parte elétrica do carro? O problema está nesse mofo, você me comprou flores e hoje eu tive que jogar elas fora porque cresceu uma teia de mofo em cima delas, um mofo gigante que vai cobrindo as nossas vidas aos poucos, como um câncer que fica espreitando, esperando uma oportunidade, e já não importa, eu posso fumar vinte cigarros na sua cara, meu amor. E se são três da tarde, ele acorda, ele não dorme mais em mim, bate na minha cara, respira mas dói, não sabe, ainda não sabemos, liga a torneira, passa água fria no pulso, passa água fria na cabeça, vai saber.