Chega esse fim do dia, a noite é empoeirada e tem um cheiro forte de café entrando na sala. Os teus pés sujando as minhas almofadas, você deita a cabeça pra trás, não me olha. Eu tenho fome. Eu não. Tem sempre um gato passeando pelo carpete, ácaro, mofo, água suja. Como uma dança, você levanta e me encara, os olhos e o nariz vermelhos, acende um cigarro e sopra fumaça na minha cara. Apaga essa merda, eu tô enjoada.
São cinco da manhã. Nós não nos falamos. Você toma muito suco de laranja. Você é feia. Eu não ligo. Cada dia que passa você é mais feia. Eu juro que não me importo. Você tá apodrecendo por dentro. Por mim tudo bem. Eu tenho feridas nas minhas unhas, delas escorre uma espécie de pus, toda vez que eu te toco eu morro um pouco. Eu me sinto cada vez menor. Sinto vergonha de você.
Ontem, não lembro mais o dia da semana, eu levanto sem motivo e pego um estilete na gaveta da cozinha. Pra cortar os teus cabelos, a tua garganta, e você sabe que você merece. Todos no quarto me observam com esse tom de reprovação. Têm nove pedras no nosso quintal, pra nove vezes em que eu te traí e enfiei uma faca nas suas costas. Você me olha, nunca mais tinha me olhado, pergunta o motivo, eu não preciso de motivos. Talvez seja só isso, todo escritor é pirado, você não estava sabendo?
Hoje durante o almoço, eu pintava as unhas na varanda, batia um sol fraco na minha cara, asfalto molhado, São Paulo é bonita de vez em quando. O que você quer fazer hoje? Não sei. Nem eu. Nesses dias é melhor não fazer nada. Têm três garrafas de suco de laranja vencidas na minha geladeira. Eu não lembro mais da sua voz. Eu preciso ser isso, um pouco esquizofrênica, pra conseguir continuar funcionando. Se não não vai rolar. Teu filho, o mais novo, tem esse cheiro forte de leite e farinha, sempre o nariz escorrendo, sabe, isso tudo me irrita.
Me escuta. Me ouve. Eu tou tentando te falar uma coisa importante. Julia tinha doze anos, ia bem na escola, tiraram ela de casa pela janela e era numa noite de inverno, garoa, todo esse clima. Não sei te dizer o que fizeram com a menina de verdade, se era doentio ou não, mas isso não vem ao caso. Julia tem dezenove anos, ela é linda, você precisa ver, morena dos olhos verdes, cheia de pintinhas nos ombros e nas costas, os peitos parecem duas maçãzinhas. Julia matou com um fio de nylon todos os caras que estupraram ela, hoje em dia ela trabalha com um pessoal da igreja, nem sei. Conheci ela num bar perto da praça da República, careca, morrendo de câncer de pulmão. Ela me contou que desistiu.
Se Julia desistiu, quem sou eu pra continuar.