Thursday, October 27, 2011

Exílio

Eu te dei tudo que eu tinha. Eu fechei os olhos e me entreguei completamente. Eu ri das tuas piadas sem graça, eu lavei tuas roupas, eu beijei o teu pinto, eu limpei as vidraças, eu li os teus livros, eu morei na tua casa, eu escancarei minha alma, eu me doei. Tudo que era meu, eu fiz nosso. O que tinha de melhor em mim, eu coloquei em ti. Nunca pedi nada em troca. Nem um sorriso, nem um milagre. Em silêncio por anos eu sentei do teu lado, assistindo à mesma televisão, você já não me olhava, eu já não me permitia entristecer. E como o tempo ao seu lado me endureceu, meu amor. E como a tua acidez foi abrindo esses buracos na minha pele, e eu fui escapando de mim, mas já não me permitia sentir dor. O que eu tinha de pior, eu coloquei no teu colo. Tudo que era meu vômito, eu fiz teu vômito. Não importava o que acontecesse, eu não ia sair do teu lado.
Você pisou na minha cara, meu amor. Fez questão que o teu salto furasse minha barriga. O que tinha de humano em ti, em mim, eu já me sinto incapaz de reconhecer. E se você agora chora, do som do teu choro eu só ouço um arroto longo. Se eu te matei, meu querido, eu queria que você entendesse que a violência que saiu dos meus dedos veio primeiro dos teus. Tudo que eu sei de melhor foi você quem ensinou. E se foi uma doença, um abajour, a espingarda embaixo da tua cama, pouco importa. Os roxos na minha perna falam mais do que a minha voz poderia. Nunca na minha vida eu senti prazer desta maneira. E se todas as madrugadas você me chupava, deitava do meu lado, me jogava na piscina, meu amor, eu tenho que confessar que o maior orgasmo da minha vida foi ver a tua cabeça estourada no chão. Te ver morrer me fez nascer de novo. Tudo de mais vil que existia em mim eu te dei, e queimei junto da tua pele, no quintal da nossa casa, não importa o que aconteça, eu nunca vou sair do teu lado, meu amor.