Thursday, January 15, 2009

Um breve ínicio de um conto sobre Sara

Desci aquela rua como se fosse minha última rua. O sol ardia forte e sua luz queimava minhas retinas. O calor parecia entrar em todas as minhas frestas e enrolar-se em volta das minhas extremidades. Sentia uma dor muito forte vinda de algum lugar bem dentro de mim. Não saberia nem dizer se era em meu corpo ou qualquer outra parte que me pertencia. Diminui o ritmo quando passei a perceber que chegava perto de meu objetivo. Olhei devagar para a esquerda e depois para a direita, procurando algo que mudasse de última hora meus planos. Nada me ajudou. Só as telhas vermelhas da casa vizinha, que brilhavam naquele dia mais do que nunca, tentaram avisar que logo ia chover. A poeira dos tijolos desenhava um reflexo do asfalto. As coisas de repente eram muito belas em seus detalhes. Eu até sorri.
Parei na frente da porta. Por alguns instantes, encarei o formato da fechadura. Acho que era tentando desvendar o sentido das trancas, o sentido das paredes, o sentido do olho mágico... Mas não terminei esse pensamento porque quando olhei pra cima ele estava parado bem na minha frente. Respirei fundo, se é que havia tempo para respirar.
- Então diga oi - ele suspirou, os olhos fixados em algum ponto atrás da minha cabeça.
- Oi - eu obedeci.
- Pode entrar, vamos.

Sentei no sofá macio e esperei uma xícara de chá. Em cima da mesa de centro, uma pilha de livros antigos aguardava que suas páginas usadas fossem mais uma vez tocadas. Um, no meio destes, chamava a atenção por ser novo. Novinho e até plastificado: era o tipo mais delicioso de livro, daqueles que parecem pedir para ser violados desde a primeira vez que você os olha. Virei a cabeça na horizontal para tentar entender seu título, mas não houve tempo. Ele estava de novo parado bem na minha frente. Deu um sorrisinho com o canto da boca e sentou. Os olhos azuis estavam muito transparentes, com a pupila bem pequenininha. Ele olhou para o próprio pé, eu achei sensato olhar também. Depois olhou pra cima, e falou meio que sussurrando que no fundo achava que eu não ia vir.
Eu também não achava que viria, mas achei mais sensato não comentar o fato. As folhas do chá tingiam a água quente de uma cor marrom escura. Queria ocupar minha mente com qualquer pensamento, porque a ausência de pensamentos estava me sufocando de uma maneira que me deixava tonta.
- Quer falar sobre o que aconteceu? - a pergunta saiu de seus lábios em tom grave e sério. Fez a situação toda parecer muito pior do que era.
Isso rapidamente me deixou muito irritada. Nunca gostei de gente fatalista.
- Não aconteceu nada. Não quero falar sobre isso. - mas queria muito falar sobre aquilo.
- Você tenta se fazer de durona, acha que eu não sei. Você não é de nada. - e deu uma risadinha.

Resolvi ignorar o comentário e levantar. Não por achar que o que ele dizia era verdade - era. Mas um quadro na parede em cima da escada havia chamado minha atenção. Era colorido, quase gritava. Uma moça loira de chapéu azul, deitada na grama. Era uma foto bem bonita.
- É uma foto bem bonita - conclui.
- A foto é normal. A modelo é bonita. Além do mais, o dia era bonito.
- A foto é boa também.
- A foto é só uma representação de todo o resto.
Não quis discutir.
- Não acho.
Discuti mesmo assim. Ele me chamou de teimosa. Importei-me só um pouco. Subi as escadas bem devagar pra ter tempo de ouvir todos os degraus de madeira rangerem. Estava com saudades daquela trilha sonora de filme de terror. Parei na metade do caminho, espiei pela janelinha do corredor as nuvens lá fora. Eram muito brancas e calmas. Suas bordas acinzentavam-se e derretiam no fundo do céu. Uma verdadeira pintura, o jeito com o qual elas se arrastavam devagar pelo azul claro e gelado. O mundo era uma aquarela. Olhei pra trás e ao vê-lo parado no pé da escada, pulsando, os cabelos muito pretos contra a camiseta vermelha, tive mais certeza ainda.
- Me diz, você está feliz? - ele nunca olhava em meus olhos. Mas dessa vez, me incomodei.
- Não sei. Me diz você, se há motivos.
- Sempre há motivos. Basta respirar.
Então respirei. Mais uma vez. E de novo. Os segundos do relógio em cima da porta do quarto pareciam tropeçar em sua própria lentidão. Aos berros marcavam o passar do tempo. A dor no fundo da minha existência apertou, quis até gemer. Sempre há motivos, ele falou. É muito maldoso dizer uma coisa dessas pra uma pessoa mergulhada em uma solidão irremediável. Mas era sabendo disso que ele escolhia suas palavras. Entrei no quarto e sentei na borda da cama, de frente para as árvores lá fora. De repente senti-me muito cansada, exausta. Enjoada de tudo que estava fazendo. Quis levantar e ir embora, sem olhar pra trás, sem pensar as mesmas coisas, quis nascer de novo. De repente todo o desenrolar dos fatos me machucou muito, e um soluço que eu engoli quase foi uma lágrima. Deitei a cabeça no travesseiro e fechei os olhos. Sem dizer nada, sabia que ele sabia que eu queria esperar o anoitecer.

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Acordei no meio da noite porque precisava beber um copo de água. Estava tudo tão escuro que mal soube como cheguei à cozinha. O barulho da torneira abrindo arranhou meus ouvidos. O escorrer pelo copo de vidro era lento e desagradável. Queria vomitar, mas não havia comido nada. Deitei no chão da cozinha pra olhar o céu cor-de-laranja da madrugada, cheio de riscos, que eram de meus olhos de não do mundo lá fora. O frio do mármore foi devagar me acalmando, e logo eu não sentia mais nenhuma sensação ruim. O gentil deslizar do céu me colocou num lugar muito sereno. Por alguns instantes eu lembrava que ele estava lá dentro, deitado na cama. Imaginava seu corpo esticado, amassando os lençóis, as mãos se mexendo devagar num sono profundo, e ficava mal de novo. Saber da sua presença era algo muito violento. Olhei mais um pouco pro céu e depois para o vidro do copo. Fiquei pensando um tempo no reflexo de meu próprio nariz, nas paredes da cozinha arredondadas. Ficava mais tranquila e o amava de novo. Acho que só o amava porque esquecia que ele estava por perto, mas pelo menos ainda havia o amor. O amor sozinho já me preenchia o bastante: nem precisava ser por ele. Podia ser o amor pelo céu da madrugada, ou o amor pelo nariz-reflexo.
Não conseguia direito organizar meus pensamentos porque o que eu sentia não eram palavras. Meus sentimentos me escapavam, a semântica se escondia e o que restava eram crises de choro injustificáveis. Pela não necessidade de dar razão ao que se sente é que eu desejava tanto fazê-lo. E o amor era pra mim, naquele instante, como uma bola de fumaça que ia ocupando todos os vãos da casa. Ou um vazamento no qual a água enchia toda a imensidão da residência. Era bonito, porque era completo enquanto presente. Mas sua ausência era pior que sua não-existência, porque os móveis ficavam todos molhados. O sofá, encharcado. As paredes começavam a descascar por causa do vapor e da umidade, e o desejo no final era que nunca tivesse havido água alguma. Era muito belo porque era muito presente quando presente, mas na verdade era horrível. Era horrível em tantos momentos, em tantas partidas e mesmo em tantas vezes quando não era seu, e sim amor dos outros, que isso levantou dentro de mim algumas dúvidas.
Talvez eu não soubesse mesmo o que era o amor. Talvez eu soubesse o que era sexo, e o que era carinho. Desejo de posse. Insegurança. Passei a nomear meu amor de outras maneiras. A parte de trás da minha cabeça começou a arder muito, então levantei rápido. Não entendia meu amor, mas ele era tão do resto e tão pouco dele mesmo que transformava-se num vazio imenso. Não que eu precisasse com tanto desespero ser preenchida, mas ficar esvaziada assim era deveras incômodo. Decidi subir as escadas e voltar para o meu sexo e minha insegurança.