O escuro daquele quarto brilhava. A translucidez das cortinas listradas transformava o movimento da brisa noturna numa valsa cantada através de sussurros. As folhas de papel jogadas no chão pulavam de um lado do assoalho para o outro inquietas, esperando com aflição o momento em que seriam finalmente preenchidas. De repente tudo ficou em silêncio e todas as partes do quadro pareceram ressoar. Ficou bem claro que a partir daquele ponto qualquer tipo de descrição do ambiente havia se tornado desnecessária.
Ela estava usando uma saia cor-de-rosa e seus pés pequenos quase não faziam ruído algum ao tocarem o chão. Naquela iluminação até mesmo seu característico sorriso reluzente tornava-se invisível.
Milhares de luzes minúsculas, como partículas, voavam pelas paredes do cômodo, cintilantes. Eu arregalava os olhos mas não conseguia tirar da minha cabeça o fato de que a minha vida cada vez mais se assemelhava à um filme ao qual eu assistia. Todos os meus movimentos aconteciam e eu apenas me observava. Talvez nunca chegasse realmente a me sentir dentro de mim.
Nós sentamos ali naquele chão gelado por algumas horas. Nada na imagem que formávamos mudou durante longos instantes. Erámos uma fotografia viva, e nos encarávamos em um silêncio de perfeito entedimento. Não há nada melhor no mundo do que poder ficar em silêncio com alguém. Todo o frio que invadia meu corpo pouco a pouco por causa do vento que vinha da janela era um benção. Estar viva era uma benção, eu não podia negar.
Ela estava usando um batom cor-de-rosa e seus lábios pequenos quase não faziam ruído algum tocarem o ar negro que a envolvia. Seria sua visão um sonho distante que tomava forma diante de meus olhos?
O peso de todos os meus ossos aumentava até que tornou-se impossível continuar ali, fazendo força para não respirar. O escuro dela era escuro demais pra mim. Era tudo lindo, mas aquela beleza ardia e eu estava ficando com muito frio. A tinta das minhas paredes grudava na pele dela e nós escorríamos como água pelo vão que ficava embaixo da porta.
Era tudo maravilhoso e eu não tinha nenhuma reclamação a fazer. Seu silêncio era uma delícia, os contornos de seus olhos negros que se dissolviam na ausência de luz eram quase doces. Mas não ia funcionar, o nosso quadro vivo não ia ganhar vida. Nós erámos obras de arte de séculos diferentes e não formaríamos um bom par.
Não, eu sentia muito, mas não seria eu quem ia preencher seus papéis brancos com palavras compridas e desconexas. Não seria eu quem iria consertar o reflexo do seu rosto assimétrico no espelho. Seria alguém, e iria chegar, mas não era a mim que você ficaria devendo gratidão.
Sua escuridão deixava meu coração pesado demais e congelado demais. E eu já sinto bastante frio sozinha.