Monday, February 18, 2008

A Vida como um Picasso (ou seria um Magretti?)

As grades da janela hoje me separam do mundo lá fora um pouco mais do que ontem.

O buraco mal-explicado
Reentrâncias e frestas na parede
O pequeno infinito pintado
Me atrai e eu me puxo pra sua rede.

Poderia ficar o dia inteiro
Encarando de leve as suas rachaduras
Penso tanto que à loucura eu beiro
Quase lambendo as tuas curvas duras.

Devagar a tua existência me destrói
Porque cresces, negro e lento
Te vejo derrubar minhas grades, mas você constrói
Uma casa em mim, e em meu colo eu te sento.

Cada pedaço branco que estragas
Com tinta cinza, eletricidade e pó
Eu toco e imagino as suas pragas
Tomando conta de mim como um grito em dó.

Eu te quero, preciso da sua presença
Quando não estás lá, te enxergo no escuro
Te seguro, te abraço, te embrulho na crença
De que és meu, mais que pensamento ou furo.

Minha ânsia por ti cresce tanto
Que acredito te impedir de qualquer ausência
Você é mais que o amor, é quase um manto
E eu sei que esse carinho não é carência
É pesquisa, te faço ciência.

E amo, porque não entendo
Por que você existe assim, obcessivo
Buraco redondo no muro, só vendo
A vida passar, a poesia passar, concessivo.