Monday, February 18, 2008

Time will tell

As paredes das casas pareciam cada vez mais e mais brancas. Era quase como se a sujeira que as deixava com manchas cinzas estivesse desaparecendo com o apertar dos meus passos, e as rachaduras milagrosamente se consertassem. Talvez tudo se conserte a partir do momento que você passa andar mais rápido. E tudo se resuma à velocidade com a qual se faz as coisas.
Virava as esquinas já quase tonta. Cada esquina parecia a mesma, só que mais desfocada. Pensei que talvez fossem todas a mesma esquina. Mesmo ângulo reto de concreto, mesmo bueiro quadrado. Subi uma ladeira, duas, três. Desci por uma ruela cercada por muros altos, com uma árvore meio morta, meio viva - era difícil dizer ao certo. De repente, como se fosse uma revelação, um ônibu batendo contra meu corpo suado, um grito bem dentro do meu ouvido, eu fiz o que tinha que ser feito. Parei.
Numa manobra inusitada, inesperada, eu simplesmente parei. Conseguia agora sentir minha respiração de novo. Ofegante, gelada, vermelha. Meus pés latejavam, meus joelhos estavam bambos, os olhos cheios de lágrimas. Nenhum pensamento realmente invadia minha mente. Era quase como as paredes brancas das casas que ficaram muitos quarteirões atrás, e a corrida havia tirado delas a poeira e as rachaduras. Não sabia o que fazer, eu era toda dor e euforia. Nem um sorriso sequer eu conseguia estampar em meu rosto. Olhei pra trás, olhei pra frente. Estava um pouco perdida e um pouco encontrada. Mexi as pontas dos dedos, depois abri a boca pra bocejar.
Dei meia volta, olhando com cuidado os paralelepípedos de pedra, meio amarronzados, meio tristes, meio dançantes. Ou talvez fosse só a minha cabeça dançando, mas a essa altura eu já não era mais capaz de saber isso ou o que quer que fosse.
Ouvi uma voz me falar alguma coisa. Não consegui descobrir se era alguém dirigindo-se a mim ou se era só a minha mente. As palavras eram longas e em alguma língua que eu não entendia. Perguntei a mim mesma se era eu capaz atualmente de entender qualquer língua. Não respondi à minha própria pergunta porque, como havia dito antes, não estava pensando muito mesmo.
Percebi que estava ficando difícil distingüir os contornos das coisas. Os bancos da praça já tinham se misturado com o verde das plantas e tudo agora era um borrão meio cor de vômito. Depois foi a vez das calçadas fundirem-se ao asfalto da rua e então aos muros das casas. Levantei minha mão em direção ao meu rosto numa desesperada porém silenciosa tentativa de encontrar algo de real naquela situação. Não havia mais palma da mão: era tudo agora um emaranhado encoberto em névoa, todas as cores e todo o mundo numa coisa só, num espaço único, o mesmo timbre de voz, e eu ia me distanciando do tumulto, me distanciando, me distanciando, até que os sons das coisas lá fora ficaram abafados como se estivessem embaixo d’água.
Senti uma mão gelada – incrivelmente gelada – tocar meu ombro. Cada centímetro meu doeu como nunca havia doído antes. Não tentei gritar, mas tive medo de ir embora.
Como se nenhum segundo tivesse passado, lá estava eu, acordada, de olhos bem abertos, encarando um teto branco, depois lençóis brancos, pessoas de branco. Mas eu não estava feliz, porque olhei pro lado e descobri uma rachadura na parede.
Eu acho que vocês me entenderam.