Todos os dedos brancos e secos deslizavam pela camurça como se fosse ela um pequeno animal a ser acariciado. Os cabelos lisos castanhos lhe escorriam pelo ombro, cascatas de chocolate amargo. Podia-se perceber que suas madeixas eram amargas mesmo se se olhasse de muito longe. Enquanto corria as unhas vermelhas pelo terno verde-musgo sua mente aparentava estar vazia. Mas talvez seja realmente impossível afirmar nesse momento se estava vazia ou não: o fato é que aparentava assim estar, talvez fosse pelo vazio profundo de seus olhos, que inundava o cômodo de infinito toda vez que ela piscava, sugando os móveis e objetos e memórias um a um lentamente para um buraco de esquecimento eterno dentro de uma mente qualquer.
A lenta ação foi então interrompida por leves batidas ressoando através da porta de madeira. Quase como se assustados, os dedos cessaram seu tamborilhar pela roupa macia e arrumaram com pressa os cabelos da moça, de um modo desajeitado porém indiscutivelmente charmoso. Um sorriso estampou-se em seu rosto enquanto virava a maçaneta.
-É hoje!
Quem exclamava era o homem parado no batente, virando seus olhos inquietos de um lado para o outro do ambiente ao invés de encarar a tempestade vazia que descansava a sua frente. Era lógico naquele momento que ele não desejava ser sugado. Estava ali pelo que estava, e estava já prestes a dizer tudo.
-Vim buscar meu terno verde. Disseram-me que estava aqui.
As mãos da moça fecharam em aflição. O sorriso transformou-se em um semblante sério e comtemplativo, emoldurando com precisão o olhar infinitamente vazio de seu pequeno oceano particular.
-Sim, está em cima da mesa.
O homem procurou mover-se devagar, como se seus passos fossem movimentos calculados de um experiente cientista frente a um animal extremamente perigoso, num momento no qual qualquer erro em seus cálculos poderia significar um completo desastre. A cena era quase uma pitoresca dança, os pés do casal encontrando-se e escapando uns dos outros numa lentidão cinematográfica.
Parou por um instante, segurando já a vestimenta firme contra o seu peito. O moço estava pálido, atravessar o pequeno quarto o havia exaustado a tal ponto que sua respiração silenciosamente ofegava. Poderia facilmente adivinhar-se o que estava pensando: como poderiam olhos tão vazios carregar tanto significado dentro de si?
A resposta era tão óbvia que esta era uma pergunta que nem ao menos deveria ter sido perguntada. Era lógico que quanto mais ocos, mais cheios os olhos eram. O enorme vazio que os envolvia era apenas tão gigantesco porque eram aqueles olhos bons em absorver tudo o que estava em sua volta, sem deixar esquecida nem uma gota se quer do que fosse. E se enchiam tanto, se amontoavam tanto uns sobre os outros em seus cantos empoeirados que os olhos acabavam então completamente drenados por eles mesmos, murchos, extasiados, e vazios. Desesperadamente vazios. Era tudo muito simples de se entender, na verdade.
-Bom, muito obrigada por ter guardado ele para mim.
O homem procurou sorrir modestamente, porém tal ato falhou, pois ao tentar mover seus lábios para a desejada posição estes apresentaram-se pesados, secos e duros. Seus braços esmagavam o terno contra seu próprio corpo. Ele estava morno e familiarmente fraternal, bem como fica uma roupa quando ela foi usada a exata quantidade de vezes que uma roupa deve ser usada: nem tão poucas vezes que a façam uma veste fria e estranha ao calor de sua própria pele, nem vezes demais que a façam ficar desgastada e esfarelada, já fora de seu perfeito encaixe sobre os ombros.
Mas já quando estava prestes a ir embora, com a tranquila sensação de segurança, o homem foi atingido. De súbido, mergulhou. Tinha sido tudo tão rápido, nem mesmo ele percebeu como acontecera. Estava virando-se para o lado e antes de dar o ato por terminado tudo que enxergou à sua frente foi aquele infinito azul, como uma piscina comprida demais para que seu final e suas escadas pudessem ser enxergados. Pareceu por um breve instante entender tudo. Depois, por um longo instante, não entendeu mais nada e nem tentou fazê-lo: já não precisava mais de entendiemento qualquer, e apenas nadava lentamente por entre as águas irritantemente geladas. Tentou colocar a cabeça para fora d'água depois de alguns segundos e foi naquele instante que percebeu que estava se afogando.
Haviam feito um acordo, ele e ela. Estava tudo resolvido. Ela se moveu devagar, passo depois de passo em direção à pequena cômoda ao lado da longa cama bege cheia de poeira e velhos lençóis. O homem desejou que ela se mexesse mais rapidamente, já que estava perdendo pouco a pouco sua respiração. Os dedos secos de unhas vermelhas puxaram então da primeira gaveta uma longa tesoura de pontas reluzentes, com seu metal prateado brilhando no silêncio cortante de seu frio. Passo a passo novamente ela se reaproximou do moço em apuros, prendendo-o com mestreza em seu mundo líquido enquanto ainda precisava fazê-lo. Movendo as mãos lentamente, porém de maneira visivelmente prazeirosa, a moça cortou o terno verde-musgo em muitos pedaços, durante muito tempo, até que já não era mais possível perceber que havia aquilo sido qualquer tipo de roupa. Algumas mexas de seu cabelo amargo foram também decapitadas durante o delicado processo, talvez por acidente, talvez por uma estranha conveniência.
Estava tudo acabado. O pó que antes fora uma pela roupa jazia no chão como uma fina camada de grama morta cobrindo o tapete.
Se não podia ser dela, então não seria de mais ninguém.
O homem levou seus pés ensopados até a porta, abriu-a e foi embora, do mesmo jeito que chegara: sem terno e com um temor escondido dentro do peito. A diferença agora era que ele estava encharcado, com os cabelos fazendo escorrer gotas de água azul pelo chão do corredor comprido. Não havia mais nada a fazer a não sei deitar na terra morna e esperar o sol nascer para secá-lo.
Mas quem é que sabe a qual hora do dia nasce o sol nos olhos de alguém?